quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ENSAIOS DE GUERRA NA FAVELA DO ALEMÃO






ARMAS VELHAS E LETAIS PARA AÇÃO NO ALEMÃO










Fuzis FAL cedidos pela Marinha foram fabricados na década de 60 e podem fazer mais vítimas de bala perdida.


Rio - O coronel Marcus Jardim, do Comando de Policiamento de Áreas da Polícia Militar, já disse que a ocupação do Complexo do Alemão para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) pode resultar em vítimas. De acordo com especialistas em armas, o problema pode começar com o uso dos 500 fuzis automáticos leves (FAL) cedidos pela Marinha à PM.

Da década de 60, o armamento cedido foi recuperado pelo Centro de Reparos e Suprimentos Especiais da Marinha (Cresumar). Quando chegarem às mãos dos policiais militares estarão com a aparência de novos, mas são armas com grande potência e alcance de cerca de 600 metros. A velocidade do projétil e o peso faz com que ele ultrapasse paredes de barracos, por exemplo.

Em 2000, a Polícia Militar formou comissões para avaliar a troca dos fuzis FAL, calibre 7,62 pelos M-16, de calibre 5,56. A intenção dos grupos de discussão era reduzir o número de vítimas de balas perdidas. O M-16 é utilizado hoje pela própria Marinha em operações como a ida dos fuzileiros navais ao Haiti.


Projéteis fragmentados

- Há possibilidade de danos sim. Não há como dizer que isso não acontecerá com o emprego dessas armas. O problema é que o tiro de 7,62 atravessa o alvo e atinge um ponto não determinado - analisou o ex-instrutor de tiro do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Paulo Storani.

No caso dos disparos feitos pelo 5,56, os projéteis se fragmentam quando atingem o alvo.

- A munição tem menos potência e até menos precisão. No caso do FAL 7,62, o tiro possui maior penetração - comentou Ronaldo Olive, especialista em armas.

Na época em que comissões da PM definiram que a utilização do M-16 reduziria o número de vítimas de balas perdidas, o governo fechou a compra de 2.500 armas deste tipo. Duas mil foram destinadas à PM. O restante, para a Polícia Civil.

Não é a primeira vez que a Marinha doa armas para a polícia. Há dois anos, o Bope recebeu 70 fuzis, de calibre 7,62, tipo FAL.

- Eu prefiro o 7,62, que é a maior parte dos nosso fuzis. O tiro é mais preciso - afirmou o coronel Mário Sérgio Duarte, da Secretaria de Segurança Pública.



Fontes:

G1

EXTRA

O Dia



domingo, 10 de fevereiro de 2008

MILÍCIAS: O FACE NEGRA DA FORÇA



ARMA QUE MATOU CORONEL FOI UTILIZADA EM CHACINA EM 2007



José Hermínio Rodrigues foi atingido por mesma arma usada em chacina em 29 de junho. Perícia comparou cápsula das balas das duas ocasiões; marcas eram as mesmas.

A arma utilizada para matar o coronel da Polícia Militar José Hermínio Rodrigues, assassinado no dia 16 de janeiro, foi a mesma usada por autores de uma chacina ocorrida em 2007. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) recebeu o resultado da perícia das balas encontradas no local do crime nesta sexta-feira (8). Elas partiram da mesma pistola calibre 380 que foi utilizada em uma chacina em 29 de junho do ano passado.


Veja o site do SPTV


Segundo os peritos, as cápsulas das balas encontradas próximas ao corpo do coronel foram comparadas com as cápsulas deixadas no local da chacina. Nos dois casos, foram observadas as mesmas marcas.

O coronel foi assassinado no final da manhã do dia 16 de janeiro, após ser atacado por motoqueiros na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, região do Mandaqui, na Zona Norte de São Paulo, de acordo com a Polícia Militar.


Saiba mais

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Segundo a PM, o comandante andava de bicicleta quando foi cercado por criminosos que estavam de moto. Rodrigues levou um tiro na cabeça e chegou a ser levado ao hospital da corporação, o Barro Branco, também na Zona Norte, onde morreu.

No ano passado o coronel afastou PM suspeitos de participar de grupos de extermínio. Esses policiais estão sendo investigados.

Na chacina de 29 de junho, seis pessoas morreram na entrada da favela do Morro do Piolho, na Vila Albertina, Zona Norte. Sete rapazes que conversavam junto a algumas motocicletas foram obrigados por um grupo a colocar as mãos para o alto. Os criminosos disparam contra todos, atingindo a maioria na cabeça. Apenas um sobreviveu.


Policiais presos

Dois sargentos e um soldado da PM estão presos desde 25 de janeiro, suspeitos de envolvimento na morte da mãe de um traficante de drogas e na tentativa de homicídio de seu filho no ano passado. Entretanto, a polícia ainda não tem provas do envolvimento deles com a morte do coronel.

No caso do assassinato da mulher, os dois autores do crime usavam uma moto Falcon preta, mesmo veículo usado pelo assassino do coronel. Outra semelhança, segundo a polícia, é que o autor dos disparos, no momento do crime, se aproximou da vítima e atirou a uma distância curta na cabeça e, após a queda do corpo no chão, continuou disparando.

A mulher foi morta porque teria ameaçado policiais que extorquiam dinheiro dela e do filho de levar o caso à Corregedoria da Polícia Militar. O delegado afirmou, baseado no depoimento desse traficante, que, como ele não cedeu à extorsão, os policiais teriam armado um flagrante contra ele no qual apresentaram uma arma e conseguiram prendê-lo.


Homicídios múltiplos

Além da morte desses seis jovens, policiais militares de batalhões da zona norte estavam sendo investigados em outras oito chacinas ocorridas na região em 2007 e na cidade vizinha de Guarulhos.

O participação de PMs na morte do coronel foi uma das principais hipóteses levantadas pela polícia no dia crime, em 16 de janeiro. O assassino, vestido de preto, ocupava uma moto Falcon, da mesma cor. Ele ultrapassou o oficial, que andava de bicicleta na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, Mandaqui, e parou logo depois. Desceu, levantou a viseira do capacete e fez posição de tiro, para mirar o alvo. Quando Hermínio passou, atirou seis vezes contra ele - a maior parte dos tiros foi na cabeça. Em seguida, aproximou-se do oficial e chutou o rosto dele, para certificar-se de que estava morto.

Na madrugada seguinte, sete jovens foram executados na região do Jaçanã e PMs da zona norte também foram apontados como suspeitos do crime.

Durante as investigações, três PMs acabaram presos. Um deles é suspeito de matar a mãe de um traficante que se negou a pagar propina. Outros dois teriam tentado matar o próprio traficante, por ter denunciado o policial. Os três, que também são investigados na morte do coronel, negam os crimes.


Fontes: O GLOBO e G1

sábado, 9 de fevereiro de 2008

VILA CRUZEIRO: MANIFESTO PELA PAZ



MORADORES DA VILA CRUZEIRO FAZEM MANIFESTAÇÃO PELA PAZ


Protesto lembrou a morte da menina Lorraine, vítima de bala perdida na quinta-feira. Segundo associação dos moradores, cerca de 500 pessoas participaram da manifestação.

Moradores da Vila Cruzeiro, na Penha, subúrbio do Rio, fizeram uma manifestação pedindo paz na região na manhã deste sábado (9). Com cartazes, cerca de 500 pessoas se reuniram no Largo da Penha para protestar contra a violência, segundo a associação de moradores.

Na noite de quinta-feira (7), um confronto entre policiais e criminosos terminou com a morte da menina Lorraine Abas Tavares Ferreira, 11 anos, atingida por bala perdida. Ela seria filha do traficante da Cidade de Deus, Jorge Ferreira, conhecido como Gim. Outros quatro moradores ficaram feridos no tiroteio.

Reforço no policiamento

A Cidade de Deus, na Zona Oeste, amanheceu neste sábado com policiamento reforçado. Desde sexta-feira (8), depois do enterro de Lorraine, a Polícia Militar faz a segurança na comunidade. Segundo a polícia, essa ação não foi bem recebida pelos criminosos que atiraram contra os agentes. Houve, pelo menos, duas trocas de tiros na Estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, que chegou a ser interditada. Um policial foi baleado de raspão na cabeça. Ele foi medicado e liberado em seguida.

Polícia abre inquérito

A polícia abriu nesta sexta-feira (8) um inquérito para investigar as circunstâncias da morte da menina Lorraine Abas Tavares Ferreira, de 11 anos, morta na noite de quinta por uma bala perdida na Vila Cruzeiro, na Penha, no subúrbio do Rio. Policiais que participaram da operação na favela e testemunhas da troca de tiros entre traficantes e os PMs serão ouvidas na próxima semana.

Saiba mais

Segundo a delegada Valéria de Castro, da 22ª DP (Penha), ainda é prematuro dizer de onde partiu o tiro que atingiu a criança. Valéria explicou que a polícia deve voltar ao lugar em que Lorraine foi atingida para tentar descobrir a direção de onde partiram os disparos. Para isso dependem da mãe da vítima, que ainda se recupera da perda.

Lorraine foi enterrada na tarde desta sexta no Cemitério da Pechincha, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. A pedido da família não houve velório.

Sindicância na PM

A Polícia Militar abriu sindicância para saber de onde partiu o tiro que matou Lorraine. Segundo a PM, ela foi atingida no tórax e chegou a ser levada para o Hospital Getúlio Vargas, mas não resistiu. De acordo com o 16º BPM (Olaria), carros da PM foram até a favela checar uma denúncia de carga roubada. Quando chegaram próximo a um dos acessos ao morro, os policiais foram recebidos a tiros pelos traficantes.

A Polícia Militar informou que a auxiliar de enfermagem Teresa Cristina de Amorim, de 44 anos, Wallace de Oliveira, de 22 anos, a adolescente Paula Araújo, de 14 anos, e uma outra criança, Karina Araújo de Medeiros, de 8 anos, foram feridos por estilhaços de bala. Eles também foram levados para o Hospital Getúlio Vargas, e passam bem.

OAB condena operação

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio condenou a ação policial que resultou na morte da menina Lorraine Tavares Ferreira, e feriu quatro pessoas na noite de quinta-feira (7).

Em nota, a presidente da comissão, Margarida Pressburger, disse que a OAB "exige a apuração rigorosa" da conduta dos policiais do 16º BPM (Olaria), que segundo moradores, entraram na favela atirando pouco depois das 21h de quinta-feira, quando pessoas ainda retornavam do trabalho e havia crianças nas ruas.

"Não é possível que continuem essas operações sem inteligência, que matam inocentes e não prendem criminosos", afirmou Margarida Pressburger.



Foto: O GLOBO

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

VILA CRUZEIRO: MAIS CRIANÇAS ENQUADRADAS PARA MORRER.


Vila Cruzeiro: Morte da menina de 11 anos tem inquérito aberto


Rio - A delegada Valéria Castro, substituta da 22ª DP (Penha), determinou a abertura de um inquérito policial para apurar a morte da menina Yorranne Abas Tavares Ferreira, de 11 anos, ocorrida na noite desta quinta-feira, na Vila Cruzeiro, na Penha. Na ocasião, havia uma troca de tiros entre traficantes e soldados do 16º BPM (Olaria) que haviam ido ao local para surpreender bandidos do Comando Vermelho que estavam reunidos em uma casa de dois andares, próximo à Estrada José Roucas, perto de um supermercado.

O carro-blindado do batalhão foi atacado a tiros por um grupo de homens armados e houve intensa troca de tiros. Durante o tiroteio, a menina foi baleada e morreu no Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Outras cinco pessoas sairam feridas.

Em Nota Oficial, a OAB/RJ condenou a operação da Polícia Militar. “Não é possível que continuem essas operações sem inteligência e não prendam os criminosos”, afirmou, na Nota, Margarida Pressburger, da Comissão de Direitos Humanos da OAB.

A menina morta é filha do traficante Jorge Ferreira, o Gim, um dos chefes do tráfico da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, e que estava participando da reunião. Outros chefões do Comando Vermelho estavam na casa de dois andares, dentre eles Antonio Ferreira de Souza, o Tota, e Alexsander de Jesus Carlos, o Choque.

“Recebemos a informação do Disque-Denúncia às 18h44m, dizendo que traficantes, bem armados, estavam reunidos naquele local e partimos para lá pouco depois das 19h. Mal entramos na Estrada José Roucas e fomos recebidos a tiros. Chovia na ocasião e havia pouca gente na rua. O nosso blindado foi perfurado a tiros. Eles deram muitos tiros”, relatou o tenente-coronel José Vieira de Carvalho Júnior, indicado para assumir o comando do 16º BPM em lugar do coronel Marcus Jardim Gonçalves.

Segundo o oficial, logo depois de iniciado o tiroteio, a tropa da PM que estava na Vila Cruzeiro deixou a comunidade para não haver mais tiros e ferir ou matar inocentes. “Infelizmente, mais tarde soubemos da morte da menina e das outras cinco pessoas feridas”, contou o futuro comandante do 16º BPM.

A delegada Valéria Castro vai ouvir, na próxima segunda-feira, um relato do comandante do 16º BPM para saber a posição exata em que os soldados e o carro-blindado se encontravam e onde estavam os bandidos. “Vai ser muito importante esta informação pois, de acordo com os laudos do IML e da Perícia Criminal, a polícia poderá determinar, com certeza, de onde partiu o disparo”, afirmou a delegada.

A policial disse ainda que irá ouvir a mãe da criança - mulher do traficante Gim - identificar todo o pessoal da PM que participou da operação, para que as armas que eles usavam sejam apreendidas e enviadas para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli a fim de que sejam submetidas à exames periciais.

Sobre acusações de que a Polícia Militar teria chegado na Vila Cruzeiro atirando, o tenente-coronel José Vieira de Carvalho Júnior disse que isso não era verdade. “Quando chegamos lá, fomos refcebidos a tiros. Eles atiraram primeiro e nós revidamos”, contou.

O militar mostrou um documento do Disque-Denúncia, recebido pouco depois de 1h da madrugada, onde constava informações de um morador da Vila Cruzeiro que disse estarem os moradores sendo pressionados pelos traficantes para realizarem manifestação acusando a PM de matar a menina.

Ontem de manhã, o clima era de calma na Vila Cruzeiro. Instigados pelos bandidos, moradores queriam ir para a Avenida Nossa Senhora da Penha fazer um ato de protesto, mas foram alertados de que a menina morta era filha de um traficante e que a manifestação poderia ser vista como “coisa de bandidos”. a manifestação acabou não sendo mais realizada. Mas ainda assim, os bandidos colocaram obstáculos naquela rua, que liga a Penha à Vila Cruzeiro, obrigando ônibus e carros a se desviar deles. Horas depois, os obstáculos foram retirados.

O novo comandante do 16º BPM (Olaria), tenente-coronel José Vieira de Carvalho Júnior, vai assumir oficialmente o comando do batalhão na próxima quarta-feira. Na segunda-feira, ele assume interinamente em virtude do coronel Marcus Jardim assumir o comando do 1º Comando de Policiamento de Área. Na quarta, Jardim passa o comando para o tenente-coronel Carvalho, que já vinha exercendo o sub-comando do batalhão.

O coronel Carvalho é um Boina Azul da ONU, tendo integrado uma Força de Paz que atuou no Timor Leste entre 1993 e 1994, juntamente com outros integrantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

“Quase morri durante um combate entre forças do governo local e os rebeldes. A tropa onde eu estava foi atacada a tiros. Ganhei até uma medalha da ONU”, disse o oficial.

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio condenou hoje (8) a ação policial que resultou na morte da menina Lorraine Tavares Ferreira, de 10 anos, feriu Karina Medeiros Silva, de 8, e Paula Araújo, de 14, enquanto brincavam na Vila Cruzeiro.

A presidente da comissão, Margarida Pressburger, disse que a OAB “exige a apuração rigorosa” da conduta dos policiais do 16º Batalhão que, segundo moradores, entraram na favela atirando pouco depois das 21h de quinta-feira, quando pessoas ainda retornavam do trabalho e havia crianças nas ruas. “Não é possível que continuem essas operações sem inteligência, que matam inocentes e não prendem criminosos”, afirmou, indignada, Margarida Pressburger.

A Comissão oficiará ao comando do batalhão pedindo explicações sobre a operação e oferecerá orientação jurídica às famílias das vítimas. A técnica de enfermagem Teresa Cristina de Amorim Santiago, do Hospital Getúlio Vargas, também foi atingida nos braços e no peito por disparos, e um rapaz, Wallace Oliveira, por um tiro na perna – segundo informações divulgadas hoje. A política de confronto adotada pela polícia já deixou mais 60 mortos na área do Complexo do Alemão, muitos sem qualquer ligação com criminosos.



Fonte.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

NÃO É POR ISSO, NEM POR AQUILO


NÃO É POR ISSO NEM POR AQUILO...



por Paula Meireles.


Não é porque não fiz que não gosto
Não é porque não falei que não acho
Não é por fingir que suporto
Não é por não gostar que disfarço
Não é por ser tímida que sou santa
Não é por ser santa que sou finjida
Não é por ser verdadeira que irei falar tudo
Não é por não falar que sou metida
Não é por ser metida que me acho
Não é por me achar que sou arrogante
Não é por não me dar bem que sou azarenta
Não é por ser calma que sou tolerante
Não é por me vestir que sou isso
Não é porque agi que ajo sempre
Não é por ganhar que sou boa
Não é por querer que sou carente
Não é por rezar que sou religiosa
Não é por amar que sou fanática
Não é por me destrair que sou burra
Não é por não brigar que sou covarde
Não é por brigar que sou corajosa
Não é por finjir não ter medo que ele parte
Não é por saber, que irei seguir
Não é por ser simpática que serei legal
Não é por lutar que vou conseguir
Não é por ser contra que não irei fazer
Não é por ter certeza que não irá mudar
Não é por criticar que irá diminuar
Não é por evitar que não vai acontecer
Não é por esconder que não irá aparecer
Não é por me esforçar que será bom
Não é por ser falso que não será concreto
Não é por não existir que será ilusão
Não é por insistir que ocorre
Não é por ser desconhecido que não tem explicação
Não é por ser certo que é verdade
Não é por ser igual que é padrão
Não é por dizerem que faço
Não é por sonhar que sou iludida
Não é por gritar que tenho moral
Não é por ser legal que serei ouvida
Não é por ser grande que irão me reconhecer
Não é por ser diferente que serei excluída
Não é por ter certeza que irei me comprometer
Não é por ser segura que irei tentar
Não é por ser destraída que vou cair
Não é por não ter forças que não irei levantar
Não é por viver que não estou morta
Não é por escolher que irei renunciar
Não é por amar música que irei dançar
Não é por ser insegura que não irei me arriscar
Não é por ser feia que não serei bonita
Não é por ser sem graça que não irei animar
Não é por me conceituarem que serei descrita,
pois para algumas coisas conceitos não há
Teoricamente é tudo bonito, teoricamente é tudo existente
Teoricamente é tudo conceito, mas é difícil dizer o que é coerente
Os conceitos não descrevem o que é até então ilimitado


Fonte: Blog Minha Hora
Foto: by Maria Elisa Mancini.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DESACATO X ABUSO DE AUTORIDADE: BRIGA DESIGUAL?


Juiz Federal é algemado após discussão com policiais da Core.



Um desentendimento entre um juiz federal e policiais civis da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), terminou na Quinta Delegacia do centro da cidade. O juiz federal Roberto Dantas Schuman de Paula acusa policiais da CORE de terem agido com abuso de poder e os agentes, por sua vez, acusam o magistrado de desacato.

O juiz contou que pegou um táxi de sua casa até a Lapa para encontrar com a namorada. Quando desembarcou do veículo, estava falando ao celular para encontrá-la quando foi abordado pelos policiais da CORE que, segundo ele, estavam em um carro com os faróis apagados. Eles buzinaram, chamando o juiz de maluco e para que ele saísse da rua. O juiz disse que questionou a atitude deles e nisso os policiais desembarcaram.

Já a versão dos agentes é de que o juiz ao ser repreendido para sair da rua teria xingado os policiais. Houve bate-boca e os policiais deram voz de prisão para o juiz federal que foi algemado. Ele afirmou que se identificou como sendo magistrado, mas que os policiais duvidaram disso e disseram que iam levá-lo para a delegacia, colocando-o na caçapa da viatura policial.

Na Quinta delegacia, todos os envolvidos foram ouvidos e liberados em seguida. O delegado de plantão não quis dar entrevista. O juiz disse que vai abrir um procedimento contra os policiais da CORE junto à Corregedoria da Polícia Civil.

Fonte

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

SOBRE A HISTÓRIA, A GEOGRAFIA E SEUS OBJETOS





SOBRE A HISTÓRIA, A GEOGRAFIA E SEUS OBJETOS

Região, espaço e poder


Odemar Leotti


Para se discutir o território como espaço controlado por certo tipo de poder, é preciso entendê-lo numa noção jurídica e política. Ao se buscar o sentido de região, vemos que provém do termo latino regere, e província como pró vincere. Traduzido ficaria o termo região como o espaço territorial visto como um espaço conquistado e que dever funcionar em prol do vencedor, portanto região já traz em seu interior o discurso do vencedor pela conquista da guerra e que de deverá ser regido por ele, para ele. Para que possamos chegar a essa compreensão necessitamos estranhar as palavras e entender que não existem metáforas e não metáforas. Todos os conceitos que tomam forma de verdade, esquecem-se que foram um dia conceitos. O papel do historiador não é o de ter esses conceitos como ponto de partida de sua pesquisa e sim como ponto de chegada. Assim procedendo estaremos fazendo um trabalho tendo os documentos como acontecimentos discursivos e opacos. Antes de vê-los como algo transparente exercendo o papel de pistas da realidade, devemos entendê-los como monumentos produzidos por uma forma de poder em sua contingência histórica espacial e temporal.


Práticas políticas antes de tudo implementam, instituem analogias para capturarem o que lhes foge ao controle – por uma implantação política eles se positivam. Descolar essas palavras é antes de tudo tarefa do arqueólogo. Dar-lhes uma história, retomar e dissolver a moral que lhes dão lugar, lhe sustentam em suas regras de emergência e das instituições que cuidam de sua aparição, implantando-as e garantindo seu funcionamento. O papel da genealogia é fazer aparece o poder das relações de dominação e a moral que ele institui e garante o funcionamento de uns sobre outros.


Para Foucault, quando se fala em “tais expressões trata-se de guerra, de administração, de implantação de gestão de poder” 1. O que diferencia esse tipo de análise dos que reinam em nosso campo historiográfico é a possibilidade de criticar a forma desqualificadora “do espaço que reina há inúmeras gerações” 2. Quando tanto se fala numa dialética das relações de produção, excluí-se uma dialética que trate das mutações discursivas que arbitram as noções de espaço. Tomamo-nos a muito tempo de noções, esquecendo-nos de suas formas conceituais e de que elas possuem tempo e lugar de aparição. Que serviram ao longo desse tempo à gestão do poder dos vencedores militarmente e de suas translações da guerra em forma de política, como fator de dominação. Esquecemos com isso, das estratégias espaciais por eles implantadas. Por isso que é importante atentarmos para Foucault quando afirma tratar-se de noções a serviço


“de guerra, de administração, de implantação, de gestão de poder. (...) dever-se-ia fazer uma crítica dessa desqualificação do espaço que reina há numerosas gerações. Será que isso começou com Bérgson ou antes dele? O espaço é o que estava morto, congelado, não dialético, imóvel. Em contrapartida, o tempo era rico, fecundo, vivo, dialético” 3.


*


Nessa pequena parte, produzi um texto, trabalhando uma metáfora da estrutura de um prédio em sua relação com o espaço em que necessita construir as fundações que garantam o firmamento para suportar um edifício que surgirá sobre essa diversidade espacial. Sem modificar o terreno o serviço do engenheiro é buscar as diferentes potencias já existentes nesse espaço disponível e através das construções de alicerces, maiores ou menores, as vigas vão se proliferando de acordo com a situação de cada singularidade desse espaço. Achei interessante a utilização desse engenho das forças estruturais e de sua relação com a situação já em funcionamento e de como essa engenharia sabe se utilizar desse conjunto de potenciais já existentes e colocá-los a serviço de um projeto estruturado a serviço de uma política edificadora. As diferentes formas potenciais mantendo-se intactas são redistribuídas em seus funcionamentos para servir a uma nova função. A manutenção a partir da construção e uso deverá funcionar para manter os potenciais espaciais a serviço de uma dominação estrutural para garantia do equilíbrio do edifício. Assim poderemos nos utilizar dessa engenharia para metaforizar as relações de dominação das singularidades desejantes e sua capitulação e redestinação de função, mantendo uma soberania sobre elas e através da sutileza do poder manter uma invisibilidade dessa dominação. Isso se daria tal com a engenharia integra as rugosidades do terreno a uma estrutura a serviço do prédio. No caso da política de dominação, as diferentes vontades de potência são ligadas a uma estrutura que se fortalece em seus funcionamentos e nesse engendramento funcionaria uma engenharia do poder: uma tecnologia da dominação.


A estrutura de um prédio está nas fundações que o suportam. Elas são calculadas, o terreno sobre o qual elas se instalam é examinado, recortado, analisado. Ponto por ponto o terreno, ou o espaço, que era antes um disperso fluir de singularidades geomórficas, passam agora, sem modificar seus conteúdos, a receber tratamentos na forma de que, ao se aferrarem de uma estrutura de ferro e concreto, de uma liga a funcionarem, mantendo suas singularidades terrenas, como um conjunto estrutural, onde cada uma das colunas só tem valor de força, de resistência atado a uma estrutura. Cada uma dessas colunas se apóiam às diferentes potencias do terreno que os tornam os seus firmamentos. Daí cada uma dessas forças de resistência do terreno se atam às colunas e só tem valor de força, de resistência atado a uma estrutura que os tornam o firmamento de todo peso, toda a extensão a desafiar a lei, fixada que está em um equilíbrio totalizante.


Ao se tentar fundar um espaço onde existam múltiplas formas de existência, de forma semelhante a cada momento histórico, deu-se como necessidade a fundação, apoiada a essas formas diversas de uma estrutura funcional totalizante. Dando maior visibilidade às menores características do funcionamento dos corpos no espaço, no ocidente, se chegou, no início do século XIX à fundação do edifício nacional. Para tanto, cada corpo em suas singularidades com suas potencias vitais transformadoras de coisas, em cada um desses corpos deveria ser fundado, de forma a manter seu poder energético, mas de forma a que ele funcionasse em consonância com os outros corpos ligados a uma grande estrutura para que a totalização desse poder energético funcionasse como uma grande usina de forças a serviço de um grande evento nacional.


Expandir o poder dessas manchas culturais, diluindo suas múltiplas fronteiras em uma fronteira nacional. Constituir, a partir de um discurso geográfico, a justificação da fronteiras e com ela poder reinar, ou fazer reinar o discurso do nacionalismo. Segundo alguns geógrafos, a geografia sendo, com a história constitutiva desse discurso nacional, eles concluem que a implantação de um poder central sobre as multiplicidades culturais, se dá e que “confia à história-geografia a tarefa de enraizamento e de inculcação do espírito cívico e patriótico” (185). Este empreendimento administrativo, terá “como efeito, segundo Foucault, “a constituição de uma identidade” (185). Sua hipótese é a seguinte: “o indivíduo não é o dado sobre o qual se exerce e abate o poder. O indivíduo, com suas características, sua identidade, em sua referencia a si mesmo, é o produto de uma relação de poder que se exerce sobre os corpos, multiplicidades, movimentos, desejos, forças” (185).



Sobre o problema da identidade regional


O documento como instrumento de saber-poder e seus três umbrais distinguidos por Foucault, nos aponta para instrumentos de medida, entre os gregos, de inquirição na Idade Média e do exame como instrumento moderno, isso sem se prender a uma cronologia rígida.


O saber, seja ele que alvo tenha como objetivo, produz saberes sobre o espaço. Esse saber tem nele instituída uma unidade que é utilizada para formatar o espaço formado por figuras exóticas, estranhas à leitura, carregada, portanto de perigos e que precisariam ser coladas ao saber, a uma coerção da verdade e à estrutura que o compõe esse funcionamento discursivo e ordenador, instituindo através de instancias objetivadas e subjetivadoras. Assim se daria a implantação do poder e a redistribuição dos desejos, das vontades de potências, ao serem redistribuídas a partir de estruturas desse poder, que sem reprimi-los os inserem num redimensionamento de suas funções conectadas às formas organizadas.


Um tipo de saber impunha nessa contingência ao trazer já em si, a exigência do cerco dessas dispersões culturais e de suas formas de sentido sobre o espaço. Suas territorialidades nômades impediam uma população sedentária e ordenada a uma origem e finalidade. Esse cerco trazia nele os modelos das reduções catequistas, dos destacamentos militares, das fortalezas. Suas formas de ataques e conquistas eram as bandeiras, as viagens de missionários na busca de arrebanhamentos de formas diferentes de sociabilidades e com elas de seus conceitos de relação com a natureza das coisas. Essas formas denominadas, de “bárbaras”, “gentios”, “primitivas”, consideradas como “selvagens”, tem nessas nomeações formas de ser produzidas pelo modelo europeu e as modalidades de seu relacionamento com os perigos que avizinhavam seu firmamento. Traziam um saber sobre o espaço. Seria um saber geográfico, ou devemos nos reportar a um plano discursivo do qual a geografia seria apenas uma de suas unidades literárias ou discursivas. Eis o que nos informa Foucault:


Se o saber geográfico não traz em si o círculo, a fronteira, quer seja ela nacional, departamental ou cantonal. E, portanto, se às figuras de internamento reveladas pelo senhor – as do louco, do delinqüente, do doente, do proletário – não se deve acrescentar a do cidadão soldado? O espaço do internamento seria então infinitamente mais vasto e menos estanque? (p. 184, 185).


É extremamente importante nos apegar à essas indagações. Saber geográfico cria fronteiras que se superpõe a outras fronteiras. Isso quanto a tempo, a finalidade, a espaço, ou seja, repõe com sedimentos ordenadores, outras formas de saber sobre a natureza das coisas, instaurando essas formas a uma estrutura ordenadora, sem restrição a suas potencias e sim pela redistribuição de seus funcionamentos. Delimitações espaciais que demarcam as relações como as paisagens, com os devires; cada qual em formas dimensionais infinitas. Colocar mapas, instalar mapas e re-situar desejos. Territorialidades superpostas por uma coação à verdade, coagir para um saber que aponta para uma necessidade nacional. O discurso da nação e as práticas de implantação. “Esse discurso geográfico que justifica as fronteiras é o discurso do nacionalismo” (p. 185). Para os geógrafos, reafirma Foucault que:


A geografia sendo, com a história, constitutiva desse discurso nacional, o que marca bem a instauração da escola de Jules Ferry, que confia à história-geografia a tarefa de enraizamento e de inculcação do espírito cívico e patriótico (185).


O efeito discursivo que daí provem é a constituição de uma identidade. O poder não se abate sobre o indivíduo. Ele é já em si produto do funcionamento de uma relação de poder. Os corpos tornam-se discursos e são destinados por uma ordenação que redistribui suas múltiplas possibilidades de si, suas formas desejantes, suas forças, seus movimentos. Foucault coloca a hipótese


de que o indivíduo não é o dado sobre qual se exerce e se abate o poder. O indivíduo, com suas características, sua identidade, em sua referencia a si mesmo, é o produto de uma relação de poder que se exerce sobre os corpos, multiplicidades, movimentos, desejos, forças” (185).


O que ora apresentamos como problema é primeiramente como se produz uma classificação do espaço nacional, portanto teríamos que exceder as balizas antes propostas por nossa pesquisa. Se a iniciamos em 1895, ano em que começa a se instituir uma formação discursiva voltada para a invenção do Brasil, tida como republicana, esse discurso toma vigorosidade no início do século XIX, e mais relevantemente em 1831, ano do período regencial. É nesse momento histórico que vemos aparecer instituições a serviço da constituição do discurso nacional, principalmente com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, da Diretoria Geral dos Índios instituídas em todo o país, com a redução das sociedades indígenas em todas as províncias e de outros dispositivos de poder. Antes mesmo do evento da independência já figurava a obra de José Bonifácio de Andrada e Silva, Projeto para o Brasil.


O mato-grossense como discurso instituidor do ser


Quando aparece o tema regionalizado, essa identidade caracteriza uma individualidade que ele ao referir a si mesmo, se exercita como produto de uma relação de poder. É fruto dessas relações de poder que se exerce sobre suas multiplicidades. Sobre seu corpo, sobre seu movimento, sobre suas forças.


É daí que nasce a motivação desse estudo e o seu problema. Se “há muito o que dizer sobre os problemas da identidade regional, e sobre todos os conflitos que pode haver entre ela e a identidade nacional” (185), devemos entender que um dos problemas, que devemos dar relevância maior, reside justamente nessas unidades discursivas, denominadas de História e Geografia e de suas conivências inconscientes, como queiram denominar a discursividade latente, ou subjetivações instituídas para uma análise discursiva. Ao se instrumentalizar nesse saber nessas noções cristalizadas como região e nação, deixam escapar a história dessas construções. Portanto se há muito que dizer, não seria dizer do que já foi dito ou da forma como foi dito. Antes de pensarmos numa aproximação maior ou menor com seu objeto devemos voltar nosso foco às estruturas literárias que compuseram as formas de sintaxes que até hoje cuidaram das suas aparições e que foram tidas como verdades. Por outro lado, devemos nos atentar para as contingências morais que ao cuidarem da aparição discursiva, se utilizam de regras dessa aparição. Isso se dá de forma taxonômica que elegem um discurso purificador, ordenador em detrimento da exclusão ou do silenciamento sutil das diversidades enunciativas, que às ameaças de obstarem os dados desejados pela implantação racionalizadora são considerados como desviantes, equivocados, errados.


Se as categorias como relações de força, relações de poder, estratégias e táticas tem uma identificação com a geografia; se noções como civilização, processo histórico, evolução histórica, formação histórica, desenvolvimentos social e econômico criaram grades, hierarquias, estatísticas, etc., elas se deram a partir do deslocamento das leituras da simultaneidade para as leis sucessivas na constituição da representação gramatical como lugar da ordem do mundo. As noções que serviram a essas duas unidades literárias, ou como prefere Foucault, a essas unidades discursivas, foram instituídas com a função disciplinar, como unidades disciplinares que serviram primeiramente como instrumentos de uma política que se institui como a guerra continuada por outros meios.


Para que possamos transitar em tempos diferentes, gostaríamos de nos entender no fato de que se joje nos consideramos vivendo numa situação em que possamos nos expressar por votos ou opiniões eleitorais, é isso em si forma de exame e que não podemos problematizar esse funcionamento presente sem nos localizar nas cumplicidades discursivas e que essa forma subjetivante, ao se exercitar, resvala-se e carrega marcas das formas anteriores a ela. Essas formas se contaminam durante os tempos? Eis um problema da pesquisa hoje. As formas de instituições jesuíticas, pombalina, ou de um assim chamado de despotismo esclarecido, imperial ou monarquia constitucional, ou em suas tentativas no século XIX até sua efetivação com o evento republicano, carregaram uma da outra uma sintaxe que, lidas fora das noções que alimentam o discurso historiográfico, podem ser consideradas como formas políticas de uma guerra silenciosa, que é em si fruto de uma discursividade que constitui o ser de um conhecimento que inventa linguagem, vida e trabalho que irão dar, a partir do século XVII, a escultura do homem, tal qual é dado a pensar até hoje. Portanto é impossível continuar a buscar uma objetividade sobre o passado brasileiro, sem sair das amarras dessa rede de saber sobre o homem brasileiro. Essas formações discursivas, tal ao se reinstituírem uma a partir da outra, fizeram, e ainda persiste em fazer, uma história que já é em si, uma história que mantém relações de dominação, que fazem, quer queiram ou não, o papel de uma política da guerra por outros meios. São elas que irão constituir um passado do Brasil contaminado por conceitos de espaços nacionalizados e regionalizados presos a essa rede que determinam novas territorialidades: primeiro pela força militar, depois pela força de uma sintaxe que garantem a continuidade do poder. Portanto conhecimento e linguagem passam a se dar na instância discursiva da representação, do conhecimento que precisa ser purificado a partir das leis subterrâneas em sua guerra contra a proliferação das falas. As múltiplas formas de linguagem produzidas por inúmeros grupos sociais estavam condenadas, nomeadas e passavam então a ser alvo de um saber purificador e ordenador das linguagens não sucessivas4.


Esse é um aspecto da primeira questão. Será que a distinção entre esses períodos que emergiram como passado, se obedecido, “não reconduz à divisão ciencia-social ciencia da natureza? Para que ao exercitarmos a partir do pensamento de Foucault, não lhe deturpemos os objetivos, queria, ao parafrasear seus exercícios intelectuais, que nos localizássemos nas formas com que foram utilizadas as noções sobre o que se leram os viajantes e as leituras que alimentaram os jesuítas. As leituras feitas por esses religiosos como contaminadoras de outros viajantes e com isso os empreendimentos colonizadores. Como no século XIX as ciências como geografia e história se alimentaram, por sua vez, dos naturalistas, que estiveram nesses espaços territoriais. Gostaria de me fazer entender, que as informações recolhidas por esses protagonistas


não as recolhiam em estado bruto. Literalmente, elas inquiriam, seguindo esquemas mais ou menos claros para elas, mais ou menos conscientes. E penso que as ciências da natureza de fato se alojaram no interior desta forma geral a inquirição. Tal como as ciências do homem nasceram a partir do momento em que foram ajustados os procedimentos de vigilância e de registros dos indivíduos. Mas isso era apenas o ponto de partida” (p. p. 185, 186).


Ao se afirmar na possibilidade do entrecruzamento entre ciências da natureza e ciencias do homem o fizeram entrecruzando “seus conceitos, seus métodos, seus resultados” (186). A fundação do Instituto Histórico e Geográfico não seria ponto fruto do discurso geo-histórico e de suas utilizações sistemáticas de inquirição, medida e exame? Para Foucault, os inventários e os catálogos forma figuras onipresentes no discurso geográfico. Ao inquirir, medir, examinar, o geógrafo exerceria sua “função essencial, a estratégica coleta de informação. Inventário em estado bruto não tem grande interesse, e que de fato só é utilizável pelo poder. O poder não tem necessidade de ciência, mas sim de uma massa de informações que ele está, por sua posição estratégica, em condições de explorar


(...)


Os viajantes do século XVII ou esses geógrafos do século XIX eram de fato agentes de informações que coletavam e cartografavam a informação, informação que era diretamente explorável pelas autoridades coloniais, os estrategistas, os mercadores ou industriais” (186). Para Foucault, esses eles forneciam “relatos codificadores”, que eram sem si, “informações precisas sobre o estado militar do país que atravessaram os recursos econômicos, os mercados, as riquezas, as possibilidade de relação” (186). Seria, continua Foucault, “ingenuidade tardia de alguns naturalistas e geógrafos do século XVIII?”, ou “eram na realidade informações extraordinariamente precisas, das quais parece que se tinha a chave?”. Essas preocupações de Foucault são importantes para que façamos um deslocamento, não na busca da objetividade do fato, mas nas formas com que essas leituras chegaram ao nosso tempo e de como temos muito delas atuando coma alimentadoras de conceitos, de noções que foram e ainda são utilizadas nas tentativas fundamentadoras da verdade sobre o passado do Brasil como um espaço nacional e das classificações que hierarquizam o espaço. Saindo de uma leitura das linguagens com suas características simultâneas cria-se um saber de suas sucessividades e a partir de sua positividade está instituído o lugar de funcionamento das regiões como parte do espaço agora localizada como perto ou longe e daí com suas noções de maior ou menor valor. Dessas derivações instituídas para o lugar do ser da natureza humana uma linguagem designadora desse ser o institui num conhecimento discursivo que é o ser no interior da linguagem e não mais nas suas exterioridades, ou seja, nos mistérios de seu emaranhado e que precisava ser colocado em ação. A partir do século XVII, os dados devem ser coletados e anexados a uma ordem: não mais eles estarão expostos a uma dispersão simultânea do mundo. Agora sua absolutização não mais se dará no emaranhado do mundo e sim na representação que a linguagem de dá como conhecimento, ao qual, esses signos deverão se compor e se integrarem a uma ordem regeneradora do mundo.



Marxismo, a geo-história e a questão do espaço:o Marx dos marxistas e o Marx leitor do espaço


Durante seu debate sobre o espaço, entrou inevitavelmente a questão do marxismo e no caso específico, dos geógrafos marxistas. Nessa discussão surgiu sobre as leituras feitas tanto pela economia como pela sociologia que ao privilegiarem o fator tempo não dera a devida atenção a uma leitura do espaço como lugar da disciplinarização. Ao ouvir sobre a ausência de estudos marxistas sobre o espaço e de não se ter livrado do “espaço instaurado por Ricardo”, Foucault afirma que para ele, marx não existe. Fala da “entidade construída em torno de seu nome” (p. 187). Ora um Marx que construiu um “imenso indivíduo, ora a totalidade que escreveu, ora um processo histórico que deriva dele” (186). Entende que os escritos de Marx sobre a formação do capital deriva da “trama da economia ricardiana” (p. 186). Recupera esse entendimento do próprio Marx e sugere a leitura da comuna de Paris e 18 brumário, onde a leitura foge dessa trama do século XVIII. Universalizar Marx, ou academizá-lo, é para Foucault, “desconhecer a explosão que ele produziu” (186).


Complementando a questão levantada pelos geógrafos, que afirmam um Marx heterogêneo visto no plano de seus estudos espaciais, o veem com “uma sensibilidade espacial surpreendente” (186). Foucault, ao concordar com a qualidade de seus estudos espaciais completa a importância e o esquecimento que os “marxistas”, deram sobre o que Marx escreveu sobre o “exercito e seu papel no desenvolvimento do poder político. São coisas muito importantes que praticamente foram deixadas de lado em alqueive, em benefício dos incessantes comentários sobre a mais-valia” (p.p. 186, 187).


Mais do que constituirmos trincheiras em defesa das disciplinas, devemos redimensioná-las ao nível de unidades discursivas e que se instituíram em contingências espaços-temporais. Com isso poderemos, para além da defesa dos conceitos que entendemos como a ela pertencentes, vê-los como germes da sua instituição como gestores, como garantidores do funcionamento dos valores morais instituídos e do lugar de honra em que as disciplinas emergem. Assim posto, podemos entender que problematizar o papel das disciplinas devemos estranhar seus papéis e dos conceitos que as movem.



*

O Brasil, as reinvenções do passado e as re-territorializações espaciais


Uma coisa ininterruptamente inventada é o passado. O Brasil é já em si um produto que surgiu da impossibilidade imposta pelos limites das leituras sobre o que é estranho ao nosso espaço e tempo do pensar, ou como disse Foucault, estranho à geografia do nosso tempo, ou ainda estranho aos domínios do pensar, que nos localiza que nos faz pertencer a um espaço-mundo. Ao nos referir ao passado devemos então problematizar as formas que deram lugar a novos sentidos de pensar o tempo e o espaço.


Porém ainda há certo desencontro ao se discutir as formas de construção do passado. O passado como objeto pode ser uma busca da objetividade desse passado ou a análise das contradições teóricas que o produziu. Um que o acha inatingível, mas acredita na sua possibilidade de encontro ao menos das proximidades desse passado. Nesse caso tudo que se faz nesse sentido não passa do entendimento de que seja “mais uma” tentativa de construção desse passado. Por outro lado existe outra forma de leitura, que entendem o passado como algo produzido por visões, mentalidades, ainda insuficientes desse passado, pelo fato de estarem elas carregadas de subjetividades, das quais é impossível se desvencilhar. Entendem que por esse motivo, esse espaço seja algo inatingível e passa a ser fruto de construções que contribuiriam com a aproximação. O primeiro seria os que ainda crêem na existência de certa objetividade a ser alcançada e por ser de difícil alcance fica por conta de aprovação de uma comunidade científica que juntos alcançariam a objetividade desse passado. Essas leituras produziram modalidades para a antropologia e para a história sociológica e sócio-cultural.


A arqueologia entende que não existe algo a espera de ser desvelado e que antes do sujeito e o objeto existem as práticas discursivas, que produzem positividades que tomam forma de verdade, e, portanto poder ao garantir a profusão dos seres a partir dessas formas de flexibilização interna da linguagem. Se antes entendemos o problema como um espaço ideológico, onde um discurso interpunha-se entre um sujeito e um objeto. Podemos deslocar nossa análise para um plano discursivo que ao antepor um discurso, constitui já esse sujeito dentro de um sistema de pensamento que traz em si uma linguagem que passa a se desdobrar dentro de si mesmo, uma vida já fruto dessa forma de linguagem e o trabalho como lugar das relações entre sujeito e objeto. Preso a esse triedro do saber, podemos dizer que se institui uma forma de ser como designadora e derivadora do saber sobre as coisas. O que era antes um ser como fruto de uma linguagem que se engendrava no mundo das coisas, e que deveria ser entendida nos mistérios de seu funcionamento, passa no período clássico a ser entendido.


Portanto não está na proximidade do objeto a função da história e sim na ação histórico-contingencial que, para possibilitar uma legitimização deste tempo, ainda quente, produziram enunciados que fizeram emergir objetos. O que interessa neste caso é buscar essas formas que produziram objetos, num dado tempo. Para isto, é importante a busca de uma genealogia do poder produzido por certa regularidade discursiva que determinariam: tanto a subjetividade do autor, quanto o objeto de sua emergência. Não é proposta da genealogia a busca de uma origem das coisas e sim da historicidade de suas profusões como força na produção do objeto, consumando uma relação de dominação e os seus efeitos de sentidos produtores de subjetividades.


Quando as ciências humanas tentam buscar o entendimento da natureza humana, é mais importante buscarmos as estruturas literárias que compõem suas formas de descoberta do que na natureza das coisas que se propõe a desvendar.


Quando procuramos explicar tópicos problemáticos como natureza humana, cultura, sociedade e história, nunca dizem com precisão o que queremos dizer, nem expressamos o sentido exato do que dizemos. Nosso discurso sempre tende a escapar dos nossos dados e voltar-se para as estruturas de consciência com que estamos tentando apreende-los; ou, o que dá no mesmo, os dados sempre obstam a coerência da imagem que estamos tentando formar dele5.


Para que se possa problematizar uma forma de pensar sobre a nossa realidade historiográfica, será preciso que saiamos do interior das casas de distribuição onde ela reside. Ao problematizarmos a crise paradigmática que estamos presenciando, devemos antes de tudo colocar em questão a crise das tentativas de saídas desta crise. Não é mais possível mantermo-nos alheios ao debate sempre do lado de dentro das salivas de Eustenes6. É preciso que se faça uma genealogia dos valores que construíram e que constroem ainda hoje as positividades historiográficas e das tentativas estruturalistas de saída desta crise. É preciso que se coloque em questão o “quadro que permite ao pensamento operar com os seres uma ordenação, uma repartição em classes, um agrupamento nominal pelo que são designadas suas similitudes e suas diferenças – lá onde, desde o fundo dos tempos, a linguagem se entrecruza com o espaço” 7.



1 FOUCAULT, Michel. 1926-1984. Perguntas a Michel Foucault sobre a Geografia. In Estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 182.

2 Ibid. p. 182.

3 Ibid. p. 182.

4 Esse aspecto será melhor detalhado no texto que produziremos como estudos de Foucault em A defesa da sociedade, que são fruto de suas aulas em 1975 e 1976, que queremos cruzar com sua obra As palavras e as coisas. Ao juntar essas duas obras, imaginamos que procuram mostrar duas partes importantes dos estudos de Foucault, que são os instrumentos de poder e as formas não discursivas de sua implantação. Uma está imbricada na outra e ficaria perigoso explicar de forma estanque uma à outra.

5 WITE, Hayden, Trópicos do Discurso: Ensaios sobre a Crítica da Cultura. São Paulo: Editora da Universidade de são Paulo, 1994. p, 13.

6 FOUCAULT, Michel. A Palavra e as Coisas. Uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. XI. Alusão que FOUCAULT faz ao texto de Jorge Luiz Borges, ao personagem que metaforicamente representaria a linguagem que em sua voracidade engole e apropria deglutindo os seres em sua saliva. Tal qual a saliva de Eustenes, as análises totalizantes transformam as singularidades dos seres em seus alimentos, transformando-os em uma única massa pastosa. Ver p. XI.

7 Ibid. p. XII. Apud. LEOTTI, Odemar. Foucault, as palavras e as coisas. (no prelo).

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