quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A HISTÓRIA DE UM PAÍS QUE QUER EXISTIR


HISTÓRIA E MEMÓRIA


Sobre a Bolívia, a história de um país que quer existir



A tragédia se repete, girando como um peão: há cinco séculos, a fabulosa riqueza da Bolívia amaldiçoa os bolivianos, que são os pobres mais pobres da América do Sul. "A Bolívia não existe": não existe para seus filhos. A análise é do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Uma imensa explosão de gás: esse foi o desfecho popular que sacudiu toda a Bolívia e culminou com a renúncia do presidente Sánchez de Lozada, que fugiu (em 17/10/2003), deixando atrás de si um rastro de mortos.

O gás iria ser enviado para a Califórnia, a preço ruim e a troco de mesquinhas regalias, através de terras chilenas que em outros tempos haviam sido bolivianas. A saída do gás por um porto do Chile colocou sal na ferida, em um país que há mais de um século vem exigindo, em vão, a recuperação do caminho para o mar que perdeu em 1883, na guerra vencida pela Chile.

A rota do gás, no entanto, não foi o motivo mais importante da fúria que ardeu por todas as partes. Outra fonte essencial foi a indignação popular, que o governo respondeu a bala, como de costume, regando de mortos ruas e caminhos. As pessoas se indignaram porque se negaram a aceitar que ocorra com o gás o que antes ocorreu com a prata, o salitre, o estanho e todo o resto.

A memória dói, mas ensina: os recursos naturais não renováveis se vão sem dizer adeus, e jamais regressam.

Por volta de 1870, um diplomata inglês sofreu, na Bolívia, um desagradável incidente. O ditador Mariano Melgarejo lhe ofereceu uma taça de chicha, uma bebida nacional feita de raiz fermentada; o diplomata agradeceu, mas disse que preferia chocolate. Melgarejo, com sua habitual delicadeza, obrigou-o a beber uma enorme tigela quente de chocolate e depois o fez passear em um burro, montado ao contrário, pelas ruas de La Paz. Quando a rainha Victória, em Londres, tomou conhecimento do assunto, mandou trazer um mapa, colocou uma cruz de tinta sobre o país e sentenciou: "A Bolívia não existe!".

Várias vezes ouvi esta história. Ocorreu assim? Pode ser que sim, pode ser que não.

Mas a frase, atribuída à arrogância imperial, se pode ler também como uma involuntária síntese da atormentada história do povo boliviano. A tragédia se repete, girando como um peão: há cinco séculos, a fabulosa riqueza da Bolívia amaldiçoa os bolivianos, que são os pobres mais pobres da América do Sul. "A Bolívia não existe": não existe para seus filhos.

Na época colonial, a prata de Potosi foi, durante mais de dois séculos, o principal alimento do desenvolvimento capitalista da Europa. "Vale um Potosi" se dizia para elogiar algo que não tinha preço.

Em meados do século 16, a cidade mais populosa, mais cara e mais decadente do mundo brotou e cresceu aos pés da montanha que provinha prata. Essa montanha, a chamada Cerro Rico, tragava os índios.

"Estavam os caminhos cobertos, que parecia que se mudava o reino" escreveu um rico mineiro de Potosi: as comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam, prisioneiros, rumo à boca que conduzia às escavações. Do lado de fora, temperatura de inverno.

Dentro, o inferno. De cada dez homens que entravam, somente três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam a fortuna dos banqueiros flamencos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios que possibilitaram a acumulação de capitais que converteu a Europa no que a Europa é.

O que obteve a Bolívia com tudo isso? Uma montanha oca, uma incontável quantidade de índios assassinados pelo cansaço, e uns tantos palácios habitados por fantasmas.

No século 19, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída para o mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Perdeu, também, seu salitre.

A história oficial, que é a história militar, conta que o Chile ganhou essa guerra. Mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North. Sem disparar um tiro ou gastar um centavo, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Peru e se converteu no rei do salitre, que era à época o fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa.

No século 20, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho do mercado internacional.

As latas de sopa, que deram fama a Andy Warhol provinham das minas que produziam estanho e viúvas. Nas profundidades das escavações, o implacável pó de silício matava por asfixia. Os operários apodreciam seus pulmões para que o mundo pudesse consumir estanho barato.

Durante a segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu para a causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo do que o baixo preço de sempre. Os salários dos operários se reduziram a nada, houve greve, as metralhadoras cuspiram fogo. Simon Patiño, dono do negócio e senhor do país, não teve que pagar indenizações porque a matança por metralhadas não é acidente de trabalho.

À época, o senhor Simon pagava 50 dólares de imposto de renda, mas pagava muito mais para o presidente da nação e a todo seu gabinete. Ele havia sido um morto de fome tocado pela varinha mágica da fortuna. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia; casaram-se com condes, marqueses e parentes de reis.

Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, restava pouco mineral, não mais que restos de meio século de desaforada exploração a serviço do mercado mundial.

Há mais de 100 anos, o historiador Gabriel René Moreno descobriu que o povo boliviano era "cerebralmente incapaz". Ele havia posto na balança um cérebro indígena e outro mestiço e havia comprovado que pesavam entre cinco e dez onças a menos que o cérebro da raça branca.

Com o passar do tempo, o país que não existe segue enfermo de racismo.

Mas o país que quer existir, onde a maioria indígena não tem vergonha de ser o que é, não culpa o espelho.

Essa Bolívia, farta de viver em função do progresso alheio, é o país de verdade. Sua história, ignorada, abunda em derrotas e traições, mas também em milagres dos quais são capazes de fazer os desapreciados, quando deixam de desapreciar a si mesmos e quando deixam de brigar entre si.

No ano 2000 ocorreu um caso único no mundo: uma população desprivatizou a água. A chamada "guerra da água" ocorreu em Cochabamba. Os camponeses marcharam desde os vales e bloquearam a cidade. A população apoiou. Foram atacados com balas e gases, o governo decretou estado de sítio. No entanto, a rebelião coletiva continuou, sem recuar, até que na investida final a água foi arrancada das mãos da empresa Bechtel. (A empresa, com sede na Califórnia, recebe agora um consolo do presidente Bush, que a premia com contratos milionários no Iraque.).

Faz alguns meses, outra explosão popular em toda a Bolívia venceu nada menos que o Fundo Monetário Internacional. No entanto, o FMI vendeu caro sua derrota, cobrou mais de 30 vidas assassinadas pelas chamadas forças da ordem, mas o povo cumpriu sua façanha. O governo não teve outro remédio a não ser anular o imposto aos salários, que o FMI havia mandado aplicar.

Agora, é a guerra do gás. A Bolívia dispõe de enormes reservas de gás natural. Sanches de Lozada havia chamado de "capitalização" à sua privatização mal dissimulada, mas o país que quer existir acaba de demonstrar que não tem memória fraca. Outra vez a velha história de riqueza que se evapora em mãos alheias? "O gás é nosso direito", proclamam os panfletos e as manifestações. O povo exigia e seguirá exigindo, uma vez mais, que o gás seja posto a serviço da Bolívia, em lugar de a Bolívia se submeter, novamente, à ditadura de seu subsolo.

O direito à autodeterminação, que tanto se invoca e tão pouco se respeita, começa por aí.

A desobediência popular fez a corporação Pacific LNG, integrada pela Repsol, British Gas e Panamericana Gas (que se supõe ser sócia da empresa Enron, famosa por seus virtuosos costumes) perder um valioso negócio. Tudo indica que a corporação viera com intenção de ganhar US$ 10 para cada dólar investido.

Por sua parte, o fugitivo Sánchez de Lozada perdeu a presidência.

Seguramente, não perdeu o sono. Sobre sua consciência pesa o crime de mais de 80 manifestantes, mas essa não foi sua primeira carnificina, e este porta-voz da modernização não se atormenta por nada que não seja rentável. Afinal, ele pensa e fala em inglês, mas não é o inglês de Shakespeare: é o de Bush.

O artigo El país que quiere existir, de Eduardo Galeano, foi publicado originalmente nos jornais Pagina 12 (Argentina), El Mundo (Espanha), e Bolpress (Bolivia)].

*Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940) é um jornalista e escritor uruguaio.


Foto: http://www.leelau.net/chai/images/bolivia/potosi.JPG

(Colaboração de Maria Elisa Mancini que nos enviou o texto)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

DON JUAN DE MARCO


DON JUAN DE MARCO*




(Have You Ever Really Loved a Woman? - Bryan Adams)




Para realmente amar uma mulher, para compreendê-la.

Você precisa conhecê-la profundamente por dentro,

Ouvir cada pensamento - ver cada sonho,

E dar-lhe asas - quando ela quiser voar.

Então, quando você se achar repousando,

Desamparado em seus braços,

Você saberá que realmente ama uma mulher...


Quando você ama uma mulher,

Você lhe diz que ela realmente é desejada.

Quando você ama uma mulher,

Você lhe diz que ela é a única,

Pois ela precisa de alguém para dizer-lhe

Que vai durar para sempre!


Então diga-me: você realmente,

Realmente... já amou uma mulher?


Para realmente amar uma mulher,

Deixe-a te segurar

Até que você saiba como ela precisa ser tocada.

Você precisa respirá-la - realmente provar o gosto dela

Até você possa sentí-la em seu sangue.

E quando você puder ver suas crianças

Que ainda não nasceram, dentro dos olhos dela,

Você saberá que realmente ama uma mulher...


Você precisa dar-lhe um pouco de confiança - segurá-la bem apertado.

Um pouco de ternura - precisa tratá-la corretamente.

Ela estará lá por você, cuidando bem de você,

Você realmente precisa amar sua mulher...

Então, quando você se achar repousando

Desamparado em seus braços,

Você saberá que realmente que ama uma mulher...

Então diga-me: você realmente, Realmente, realmente já amou uma mulher?"



Tradução da letra da música.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

GUERRA INSANA E POLÍTICA DE SEGURANÇA CRIMINOSA


A ROCINHA PEDE PAZ





Cerca de 400 pessoas fazem homenagem e protesto no enterro de menina assassinada.



Rio - “A Rocinha chora por mais uma de nossas crianças estupidamente assassinadas. Justiça e paz”. O lamento estava estampado em 200 camisas distribuídas pela família de Ágatha Marques de Souza, 11 anos, morta com um tiro no peito dentro de casa na sexta-feira na Rocinha, durante uma operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).

Aproximadamente 400 pessoas acompanharam o enterro, ontem, muitas com balões brancos nas mãos, no Cemitério São João Batista, no fim da tarde. Várias crianças participaram com cartazes e faixas de protesto e indignação pela morte da garota.

Cerca de 100 vans e ônibus e centenas de motos com faixas de protesto acompanharam o cortejo, que percorreu a orla do Rio. Muitos veículos estavam com fotos de Ágatha no painel ou com fitas pretas amarradas nos retrovisores e antenas. Durante o trajeto, houve salva de palmas diversas vezes.

O corpo da menina foi velado no Centro Comunitário Vila Verde. Às 16h, o cortejo saiu pela orla, que chamou a atenção de moradores e turistas que estavam no local. Ágatha tinha feito aniversário de 11 anos no mês passado e trocado a festinha por um vôo de asa-delta.


Tristeza e revolta dos parentes

Muito emocionado, o motorista de van Claudino Silva dos Santos, pai de Ágatha, contou como foi o momento em que ela foi atingida. “Olhei para a minha filha, vi a marca do tiro e pensei que tivesse sido de raspão. Depois vi que ela sangrava muito e que a bala tinha atravessado o seu corpinho. Olhei fixo para ela e pedi que continuasse respirando. Jamais vou esquecer a imagem dela agonizando nos meus braços”, disse ele. A mãe, Flávia da Silva Marques, teve que ser amparada o tempo todo por parentes e dizia apenas que queria sua filha.

Segundo o tio de Ágatha, o taxista Humberto Barbosa Santos, ninguém é contra o trabalho da polícia. “Mas não se pode admitir que eles entrem de qualquer jeito. Isso tem que acabar.” “O que aconteceu aqui foi um ato covarde e estúpido dos policiais, a comunidade está chocada”, disse o presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Luiz Cláudio de Oliveira, o Claudinho.


Comunidade acusa policial civil

Testemunhas acusaram um policial de ser o autor do tiro que matou Ágatha Santos. Segundo pessoas que estiveram ontem no enterro, um agente com a camisa da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas estava na caçamba de uma picape apontando sua arma em direção à comunidade. A declaração do delegado da Core Rodrigo Oliveira de que os policiais não passaram pelo local onde Ágatha morava revoltou moradores. Ele era o coordenador da operação.

Segundo a delegada titular da 15ª DP (Gávea), Márcia Julião, a perícia no local só vai acontecer amanhã. “Como hoje (ontem) é sábado, não estou na delegacia. Primeiro vou recolher peças importantes para a investigação e só depois vou mandar fazer perícia”, afirmou. No entanto, a partir de amanhã, Márcia Julião deixará o comando da 15ª DP. Em seu lugar entrará a delegada Patrícia Aguiar.


por Mahomed Saigg e Maria Inês Magalhães


Fonte: O Dia.

ARRE! SE COM JUIZ É ASSIM, IMAGIMEM COM O POVO...



O juiz, a polícia e o malandro.




por Roberto Schuman*


Segunda-feira de carnaval. Saí de casa por volta das das 22 horas para encontrar a namorada na porta do Circo Voador, na Lapa. Ao chegar, deixei o táxi ao celular, para tentar localizá-la. Além de tênis, bermuda e camisa, usava um chapéu, desses vendidos em todos os cantos da cidade a 5 reais. Presente da namorada. Coisa de mulher.

Atravessei a rua e quase fui atropelado por um camburão, luzes e lanternas apagadas, com a inscrição Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, unidade especial da Polícia Civil do Rio). No mesmo momento, o motorista gritou: “Ô, malandro!” Assustado, dei um pulo para a calçada, pedi desculpas e virei as costas, ainda ao celular.

Percebi, então, que a viatura andava ao meu lado, com três policiais de preto. E escutei, em alto e bom som: “Saia da rua, seu malandro e bêbado!” Neste momento, reagi. Isso não é jeito de tratar as pessoas na rua. “Não sou bêbado nem malandro. Se vocês não estiverem em operação, está errado andarem com essa viatura preta e apagada, pois quase me atropelaram e vão acabar ferindo alguém!”

Foi a oportunidade que queriam. Os homens de preto desceram da viatura: “Ô, malandro, tu é abusado e tá preso”. Ato contínuo, diante da voz de prisão, estendi os dois braços para ser algemado. Pergunto ao mais novo dos três, que estava completamente alterado: “Qual o motivo da prisão?” Resposta: “Desacato”. Insisto: “O que os senhores entendem por desacato?” Resposta: “Até o DP a gente inventa, se a gente te levar pra lá”.

Percebi a gravidade da situação e disse: “Estou me identificando como juiz federal e minha identificação funcional está dentro da minha carteira, no bolso da bermuda”. Imediatamente, o policial novinho, que se identificou como André e no DP disse ser Cristiano, meteu a mão no meu bolso, pegou a minha carteira e a colocou em um dos bolsos de sua farda preta. Então, o impensável aconteceu! Disseram: “Juiz federal é o c... Tu é malandro e vai para a caçapa do camburão”.

Fui atirado na mala do camburão como bandido, algemado, com o celular no bolso. Os três policiais do Core diziam que, no máximo, eu deveria ser “juiz arbitral ou de futebol”. Temi pela vida. Por incrível que pareça, veio-me aquela frase de Dante, da obra Divina Comédia: “Abandonai toda esperança, vós que entrais aqui”.

Sem perder as esperanças, mesmo algemado, peguei o celular do bolso e liguei para a assessoria de segurança da Justiça Federal. Informei a situação, bem baixinho. Que não sabia se seria levado ou não ao DP. Pedi para acionar a Polícia Militar e localizar a viatura do Core que circulava pela Lapa comigo algemado.

Após o telefonema, disse-lhes uma única coisa, ainda na viatura. “Vocês estão cometendo crime.” Eles zombaram aos risos: “Juiz federal andando com esse chapéu igual a malandro. Até parece. Se você for mesmo juiz, a gente vai chamar a imprensa, pois juiz não pode andar como malandro”.
Na delegacia, as gracinhas dos policiais continuaram: “Olha o chapéu do malandro”. Já me sentindo em segurança, revidei. “Vocês querem que eu tire o chapéu e vista terno e gravata?” O fato é que, na presença do delegado, as algemas foram retiradas. Vinte minutos depois, um dos policiais de preto veio ao meu encontro: “Excelência, desculpas. Nós agimos mal, podemos deixar por isso mesmo?”
Respondi: “Primeiro, não me chame de excelência, pois até há pouco eu era malandro. Segundo, não. Não pode ficar por isso mesmo. Como é que vocês tratam assim as pessoas na rua, como se fossem bandidos? Terceiro, vocês três não honram a farda que vestem. Quarto, desde a abordagem policial, agi apenas como cidadão e fui desrespeitado. Depois de ter me identificado como juiz federal, fui ainda mais ofendido. Logo, houve um crime de abuso de autoridade seguido de outro de desacato.

O circo foi montado pelo próprio agente Cristiano, que ligou do interior do DP para os repórteres, de forma incessante. Talvez temesse que ele e seus dois colegas de farda preta fossem presos por mim no interior do DP. Decidi não fazê-lo, porque em nada prejudicaria a instauração de procedimento administrativo na Corregedoria da Polícia Civil, bem como a ação penal por abuso de autoridade e desacato, sem mencionar o dano à minha pessoa, como cidadão e magistrado.

“Se como juiz federal fui ameaçado por três homens de farda preta com pistolas automáticas, algemado e jogado como um bandido na mala de um camburão, simplesmente por tê-los repreendido, de forma educada, como convém a qualquer pessoa de bem, o que aconteceria a um cidadão desprovido de autoridade e conhecimento dos seus direitos?”

De minha parte, duas coisas estão claras. Não permitirei nada passar em branco, pois são fatos sérios e graves que partiram daqueles que têm o dever de zelar pela segurança da sociedade. E, no próximo carnaval, não usarei o presente da namorada, o tal chapéu. É perigoso. Pode ser coisa de malandro.


*Cidadão e juiz federal no estado do Rio de Janeiro


Fonte

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

TOLERÂNCIA ZERO: MITO LETAL


Dissecando a “tolerância zero”


A chamada “tolerância zero”, vulgata da segurança que se apresenta como um discurso científico que propõe implantar uma ação policial “racional”, não passa de uma fraude, decantada por políticos de esquerda e direita pelo mundo inteiro


Loïc Wacquant

A canonização do “direito à segurança” é o correlato do abandono do direito ao trabalho, vilipendiado pelo desemprego em massa e pelo emprego precário

Um pânico moral espalha-se através da Europa em torno da “violência urbana” e da “delinqüência dos jovens”, que ameaçariam a integridade das sociedades desenvolvidas e seriam punidos com penas severas. A encenação política da “segurança”, atualmente divulgada em sua estrita acepção criminal – desde que o próprio “crime” foi restrito apenas à delinqüência de rua, ou seja, em última instância, às torpezas das classes populares –, tem como função permitir aos dirigentes atuais, ou futuros, reafirmar a capacidade de ação do Estado no momento em que pregam unanimemente sua impotência em matéria econômica e social1. A canonização do “direito à segurança” é o correlato do abandono do direito ao trabalho, inscrito na Constituição, mas vilipendiado pela continuidade do desemprego em massa e pelo aumento dos assalariados em regime precário. Estes negam qualquer segurança de vida aos que a ele estão condenados e que são a cada dia mais numerosos.

Nos canais de televisão mais importantes, o jornal das 20 horas transformou-se em crônica das ocorrências policiais que subitamente são muito numerosas e ameaçam todo mundo: aqui, é o caso de um professor primário pedófilo; ali, uma criança assassinada; mais adiante, um ônibus urbano apedrejado. Os programas especiais se multiplicam no horário nobre, como o “Isto pode acontecer com você” de 13 de fevereiro último na TF1 que, no item da “violência escolar”, conta a história de um garoto que se suicidou depois de um roubo à mão armada no pátio de uma escola, caso absolutamente aberrante, mas rapidamente usado como paradigma, em função dos índices de audiência. As revistas semanais estão repletas de reportagens que revelam os “verdadeiros números”, os “fatos ocultos” e outros “relatórios explosivos” sobre a delinqüência, em que o sensacionalismo compete com o moralismo, sem esquecer de estabelecer, periodicamente, a assustadora cartografia de “bairros proibidos” e enumerar “conselhos práticos” indispensáveis para enfrentar os onipresentes e multiformes perigos decretados2.


A ordem social pela força

Por toda parte é repetido o pungente refrão sobre a inércia das autoridades, a imperícia da justiça e a indignação apavorada ou exaltada das pessoas comuns. O governo multiplica as medidas ostensivas de repressão – das quais mesmo seus membros menos argutos não ignoram a total ineficácia sobre os problemas de que deveriam tratar. Um exemplo é a compra excessivamente dispendiosa de um colete à prova de balas para cada policial francês, quando 97% deles nunca chega a entrar em contato com qualquer bandido armado durante toda a sua carreira e o número de policiais mortos em serviço tenha diminuído pela metade em dez anos.
O noticiário de TV transformou-se em crônica de ocorrências policiais: um professor pedófilo; uma criança assassinada; um ônibus apedrejado

A oposição de direita não fica atrás e promete sobre todos os aspectos fazer a mesma coisa, porém mais depressa, mais intensamente e mais energicamente. Com exceção dos representantes da extrema-esquerda e dos Verdes, todos os candidatos a cargos eletivos promoveram a “segurança” ao grau de prioridade absoluta da atuação pública. E propõem apressadamente as mesmas soluções primitivas e punitivas: intensificação da atividade policial, concentração sobre os “jovens” (de origem operária e imigrante, claro), os “reincidentes” e os “focos” de criminosos da “periferia” (o que exclui comodamente a criminalidade do “colarinho branco” ou institucional), aceleração dos procedimentos judiciários, endurecimento das penas, extensão do recurso à detenção – inclusive para menores de idade – quando está amplamente comprovado que a reclusão é eminentemente geradora de criminalidade. Finalmente, para permitir tudo isso, reivindicam o aumento sem limites dos meios destinados à manutenção da ordem social pela força. Até o chefe de Estado3, delinqüente por várias vezes reincidente e sem qualquer vestígio de pudor, ousa pedir “tolerância zero” contra infrações, ainda que leves, nos bairros desfavorecidos.


Política made in USA

Essa nova figura político-discursiva da “segurança” que, em todos os grandes países da Europa, reconcilia a direita mais reacionária com a esquerda governamental retira o essencial de sua força de imposição dessas duas potências simbólicas contemporâneas que são a ciência e os Estados Unidos da América do Norte – e melhor ainda, do cruzamento de ambas: a ciência norte-americana aplicada à realidade norte-americana.

Da mesma forma que a visão neoliberal em economia se baseia em modelos de equilíbrio dinâmico construídos pela ciência econômica ortodoxa made in USA, país que detém um quase monopólio dos prêmios Nobel nessa disciplina, a atual vulgata da segurança apresenta-se sob a aparência de um discurso científico que quer pôr a “teoria criminológica” mais avançada a serviço de uma política decididamente “racional” e, portanto, ideologicamente neutra e em última instância indiscutível, uma vez que é orientada por puras considerações de eficácia e eficiência. Assim como a política de submissão ao mercado, ela provém diretamente dos Estados Unidos, transformados em sociedade-farol da humanidade, a única da história dotada de meios materiais e simbólicos capazes de converter suas particularidades históricas em ideal trans-histórico, e de fazê-lo acontecer, transformando a realidade à sua imagem por toda parte4. Foi em Nova York, por exemplo, que os dirigentes políticos franceses (mas também britânicos, italianos, espanhóis e alemães), de direita como de esquerda, foram em peregrinação nestes últimos anos para marcar sua determinação recobrada de vencer a criminalidade de rua e para se iniciarem, com esse objetivo, nos conceitos e medidas implementados pelas autoridades norte-americanas5. Apoiado na ciência e na política do crime control. testadas na América do Norte, o pensamento único sobre segurança apresenta-se sob a forma de um encadeamento de “mitos científicos” dos quais se torna urgente examinar a trama e dissecar as motivações.


O refrão repressivo catastrofista


A imprensa sensacionalista divulga, periodicamente, mapas de “bairros proibidos” e enumera “conselhos práticos” para enfrentar perigos onipresentes

1. Uma América do Norte “supercriminosa” hoje pacificada e superada pela França: segundo esse primeiro mito, os Estados Unidos estavam assolados, até há pouco tempo, por taxas astronômicas de criminalidade, mas teriam, graças a suas inovações policiais e penais, “resolvido” a equação do crime, a exemplo de Nova York. Ao mesmo tempo, as sociedades da velha Europa, por negligência, se teriam deixado apanhar pela espiral da “violência urbana”. Foi assim que Alain Bauer – diretor-presidente da Alain Bauer Associates, empresa de “consultoria em segurança” e, além de assessor de ministros socialistas, grão-mestre do Grande Oriente da França – anunciou com estardalhaço que, depois de fazer o “cruzamento histórico das curvas” entre os dois países em 2000, “a França é mais geradora de crimes que os Estados Unidos” 6.

Difundida pela mídia institucional, essa “revelação” demonstra que, em matéria de insegurança, pode-se dizer tudo e qualquer coisa e ser levado a sério, desde que se entoe o refrão repressivo catastrofista da moda. Na realidade, foi estabelecido há uns dez anos, graças à International Crime Victimization Survey (ICVS) 7, que os Estados Unidos têm taxas de criminalidade absolutamente comuns, quando se medem em função da incidência da “vitimação” – e não a partir das estatísticas da criminalidade declarada às autoridades, cujos especialistas sabem que elas medem melhor a atividade da polícia que a dos delinqüentes. Com exceção, notável e explicável, dos homicídios, os índices norte-americanos são há muito tempo comparáveis e mesmo geralmente inferiores aos de muitas outras sociedades desenvolvidas. Em 1995, por exemplo, os Estados Unidos estavam em segundo lugar – depois da Grã-Bretanha – em roubos de carros e em agressões e ferimentos; em terceiro lugar, bem atrás do Canadá, em matéria de roubos em residências; em sétimo lugar no que diz respeito a atentados sexuais; e em último lugar na incidência de roubos simples, com um índice inferior à metade do índice da Holanda.

Uma bobagem ideológica

Repete-se incessantemente o refrão sobre a inércia das autoridades, a imperícia da justiça e a indignação apavorada ou exaltada das pessoas comuns

No entanto, com dez assassinatos por 100 mil habitantes no início da década passada, e seis por 100 mil hoje, seu índice de homicídios continua seis vezes superior ao da França, da Alemanha e da Grã-Bretanha. Os Estados Unidos, portanto, têm um problema específico de violência mortal por arma de fogo, fortemente concentrado nos guetos urbanos. Essa violência está ligada, por um lado, à posse de uns 200 milhões de fuzis e pistolas (quatro milhões de norte-americanos portam armas normalmente), e por outro lado ao enraizamento da economia ilegal de rua nos bairros desfavorecidos das metrópoles.

O decréscimo da criminalidade violenta na França, e mais amplamente na Europa, não aproxima mais esses países do “modelo norte-americano” dominado pela violência letal. A taxa de homicídios na França caiu um quinto em dez anos, passando de 4,5 por 100 mil habitantes em 1990 para 3,6 em 2000. Se as agressões e ferimentos voluntários aumentaram significativamente, essa violência, longe de atingir “todo mundo e em toda parte”, permanece concentrada no meio da população jovem de origem operária e é geralmente leve: na metade dos casos, as “agressões” apresentadas às autoridades são exclusivamente verbais; só provocam hospitalização ou dispensa do trabalho num caso em vinte8.

Portanto, a afirmação de que a América do Norte era “supercriminosa” e não o é mais a partir do advento da “tolerância zero”, enquanto a França o passa a ser (está subentendido: porque não soube importar com urgência essa medida), não tem como origem a tese criminológica, mas a bobagem ideológica.


O mito da diminuição da criminalidade

2. Em Nova York, como em qualquer outro lugar, foi a polícia que fez desaparecer a criminalidade. Um relatório recente do Manhattan Institute, centro nevrálgico da campanha mundial de punição da miséria, afirma enfaticamente esse mito: a baixa contínua da estatística criminal nos Estados Unidos seria atribuída à ação das forças da ordem, uma vez que estas foram liberadas, como em Nova York, dos tabus ideológicos e das imposições jurídicas que as limitavam9. Mas também aqui, os fatos são insistentes: todos os estudos científicos concluem que a polícia não desempenhou o papel motor e prioritário que os partidários da gestão penal da insegurança social lhe atribuem – longe disso.

A primeira prova é que a baixa da violência criminal em Nova York ocorreu três anos antes da chegada ao poder de Giuliani, em fins de 1993, e continuou diminuindo depois de sua posse na prefeitura. Melhor ainda, a taxa de homicídios cometidos sem arma de fogo diminui regularmente desde 1979. Só os homicídios por bala, cujo número crescera muito, entre 1985 e 1990, devido à difusão do comércio de crack, caíram a partir de 1990. Nenhuma dessas duas curvas apresenta inflexão especial na gestão de Giuliani10.


Emprego diminui a violência

Com exceção da extrema-esquerda e dos Verdes, todos os candidatos a cargos eletivos promoveram a “segurança” a prioridade absoluta da atuação pública

A segunda prova é que o refluxo da criminalidade violenta não é menos nítido nas cidades que não aplicam a chamada política de “tolerância zero”, inclusive as que, optando por uma abordagem oposta, se empenham em estabelecer relação contínuas com os habitantes de forma a prevenir os atentados, em vez de tratá-los com a repressão penal excessiva. Em São Francisco, uma política de orientação dos jovens delinqüentes para programas de formação, de aconselhamento e de tratamento social e médico permitiu diminuir o número de ingressos em casas de detenção em mais da metade, reduzindo a criminalidade violenta em 33% entre 1995 e 1999 (contra 26% em Nova York, onde o volume de admissões na detenção aumentou um terço nesse período). A terceira prova é que Nova York já havia posto em prática, de 1984 a 1987, uma política de manutenção da ordem similar àquela adotada a partir de 1993, tendo como resultado um aumento significativo da violência criminal... A estratégia policial adotada por Nova York na década de 90, portanto, não é necessária nem suficiente para explicar a queda da criminalidade nessa cidade.

Seis fatores, independentes da atividade da polícia e da justiça, combinaram-se para reduzir significativamente a incidência de crimes violentos nas metrópoles norte-americanas. Inicialmente, um crescimento econômico sem precedentes por sua amplitude e duração deu trabalho a milhões de jovens até então condenados à inatividade ou ao business, inclusive nos guetos e bairros em que o desemprego regrediu nitidamente, embora a maioria desses empregos continue sendo precária e mal remunerada.

Depois, o número de jovens (principalmente de 18 a 24 anos, os mais inclinados a infrações violentas) baixou, o que se reflete quase mecanicamente por um refluxo da criminalidade de rua. Por outro lado, o comércio de pasta do crack nos bairros desfavorecidos estruturou-se e estabilizou-se; os usuários passaram a consumir outros entorpecentes (maconha, heroína e anfetaminas), cujo tráfico gera menos violência porque opera através de redes de conhecimentos, mais do que por trocas anônimas em lugares públicos11.


O discurso sedutor da “responsabilidade”

Até Chirac, delinqüente por várias vezes reincidente e sem qualquer pudor, ousa pedir “tolerância zero” contra infrações nos bairros mais pobres

Além dessas três causas econômicas e demográficas, um efeito de aprendizagem afastou os jovens nascidos depois de 1975 das drogas pesadas e do estilo de vida a elas associado, por se recusarem a sucumbir ao destino macabro que viram ter seus irmãos mais velhos, primos e amigos: toxicomania incontrolável, reclusão criminal, morte violenta e prematura. Em seguida, as igrejas, escolas, associações diversas, clubes de bairro, coletivos de mães de crianças vítimas de matanças de rua se mobilizaram nas zonas de exclusão e exerceram, por onde ainda podiam, sua capacidade de controle social informal. Suas campanhas de sensibilização e de prevenção acompanharam e reforçaram o movimento de recuo dos jovens da economia predatória da rua. Essa dimensão é totalmente ocultada pelo discurso dominante sobre a queda da criminalidade nos Estados Unidos. Finalmente, as taxas de violência criminal divulgadas pelos Estados Unidos no começo da década de 90 eram anormalmente elevadas e tinham, portanto, todas as chances de se encaminhar para uma baixa, ainda mais porque a combinação dos fatores que a fizeram saltar para fora da norma (tal era a progressão inicial do tráfico do crack) não podia perdurar.

A conjunção desses seis fatores é suficiente para explicar o declínio da criminalidade violenta nos Estados Unidos. Mas o tempo longo e lento da análise científica não é esse, rápido e irregular, da política e da mídia. A máquina de propaganda de Giuliani soube aproveitar esse atraso natural da investigação criminológica para preencher o vazio de explicação com um discurso pré-fabricado sobre a eficiência da repressão policial. Um discurso sedutor já que, escorado pelo tropo da “responsabilidade”, faz repercutir a temática individualista e utilitarista trazida pela ideologia neoliberal atualmente hegemônica. Mas admitamos, para a necessidade da demonstração, que a polícia tenha tido efetivamente um impacto significativo sobre a criminalidade em Nova York. Resta então a questão de saber como ela teria produzido esse resultado.


Recursos e novas tecnologias

3. Por trás da “tolerância zero”, a reorganização burocrática. Segundo a mitologia planetária difundida pelos think tanks neoliberais e suas correias de transmissão midiáticas e políticas, a polícia nova-iorquina teria abatido a hidra criminal aplicando uma política especial – chamada de “tolerância zero” – que se empenha em perseguir sem trégua as menores infrações cometidas na via pública. Desde 1993, por exemplo, qualquer pessoa que se encontrasse mendigando ou vagando pela cidade, ouvindo o rádio do carro muito alto, sujando ou “grafitando” a via pública, poderia ser automaticamente detida e diretamente enviada para trás das grades: “Acabaram-se os simples controles na delegacia. Se você urina na rua, vai preso. Decidimos consertar as “vidraças quebradas” [ou seja, as mínimas marcas externas de desordem] e impedir quem quer que seja de quebrá-las de novo.” Essa estratégia, afirma seu chefe, William Bratton, “funciona nos Estados Unidos” e funcionaria também “em qualquer cidade do mundo12.”


Assim como a política de submissão ao mercado, a figura político-discursiva da segurança provém diretamente dos EUA, sociedade-farol da humanidade

Esse slogan policial da “tolerância zero” fez a volta ao mundo, mas é uma noção vaga que oculta, pelo próprio fato de misturá-las, quatro transformações concomitantes – mas distintas – da manutenção da ordem pública. A polícia de Nova York inicialmente se empenhou numa vasta reestruturação burocrática: descentralização dos serviços, diminuição dos níveis hierárquicos, rejuvenescimento dos efetivos, indexação da remuneração e da progressão dos delegados de bairro de acordo com os “números” que produzem. Em seguida, seus recursos aumentaram consideravelmente: os efetivos policiais passaram de 27 mil, em 1993, para 41 mil menos de dez anos depois, às custas de um aumento do orçamento da polícia, enquanto, ao mesmo tempo, o orçamento dos serviços sociais era cortado. A polícia procedeu também a um desenvolvimento de novas tecnologias informáticas, entre as quais o sistema Compstat, que permite seguir em tempo real a evolução de delitos e crimes, a fim de redistribuir “em fluxo tenso” os efetivos policiais nos setores atingidos. Finalmente, foram revistos os procedimentos do conjunto dos serviços de acordo com os esquemas dos gabinetes de consultoria em “engenharia empresarial” e foram implementadas ações precisas contra o porte de armas, o tráfico de entorpecentes, a violência conjugal, as infrações do código de trânsito etc.


A polícia-empresa em ação

No total, uma burocracia considerada pouco inspirada, passiva, corrompida e que tinha adotado o hábito de esperar que as vítimas do crime apresentassem a queixa para se contentar em registrá-la, transformou-se em verdadeira “empresa” de “segurança” zelosa, dotada de recursos humanos e materiais colossais e de uma atitude ofensiva. Se essa mutação burocrática teve um impacto significativo sobre a criminalidade – o que ninguém chegou a demonstrar –, esse impacto, no entanto, não é motivado pela tática adotada pela polícia.

4. Da “vidraça quebrada” aos “testículos despedaçados”. O último mito planetário sobre a segurança proveniente dos Estados Unidos é a idéia segundo a qual a política de “tolerância zero”, considerada responsável pelo sucesso policial de Nova York, se basearia numa teoria criminológica cientificamente comprovada, a famosa “teoria da vidraça quebrada”. Ela postula que a repressão imediata e severa das menores infrações na via pública detém o desencadeamento de grandes atentados criminosas (r)estabelecendo nas ruas um clima sadio de ordem – prender os ladrões de galinhas permitiria paralisar potenciais bandidos maiores13. Ora, essa pretensa teoria é tudo menos uma teoria científica, já que foi formulada, há vinte anos, pelo cientista político conservador James Q. Wilson e seu comparsa George Kelling sob a forma de um texto de nove páginas – publicado não numa revista de criminologia, submetida à avaliação de pesquisadores competentes, mas numa revista semanal cultural de grande circulação. E nunca recebeu, desde então, o menor indício de prova empírica.



Verniz racional para a discriminação

Apoiado na ciência e na política do crime control, o pensamento único sobre segurança apresenta-se na forma de um encadeamento de “mitos científicos”

Seus adeptos citam sempre, em sua defesa, um livro do cientista político Wesley Skogan, Disorder and Decline, publicado em 1990, que estuda as causas e os remédios para os deslocamentos sociais em quarenta bairros de seis metrópoles norte-americanas. Mas esse livro demonstra, na verdade, que é a pobreza e a segregação racial – e não o clima de “desordem urbana” – que são as principais determinantes da taxa de criminalidade na cidade. Por outro lado, as conclusões estatísticas foram invalidadas em razão do acúmulo dos erros de avaliação e dos dados incompletos. Finalmente, seu próprio autor dá à famosa “vidraça quebrada” o status de simples “metáfora” 14.

Há coisas ainda mais esquisitas: a adoção do assédio policial permanente da população pobre de Nova York não tem, segundo declarações dos próprios inventores, ligação alguma com qualquer teoria criminológica. A famosa “vidraça quebrada” só foi descoberta e invocada pelos oficiais nova-iorquinos a posteriori, a fim de fantasiar com adornos racionais medidas populares junto ao eleitorado (em sua maioria branco e burguês), mas discriminatórias tanto em princípio como na aplicação, dando assim um aspecto inovador ao que era apenas um retorno a uma velha receita policial. Qualificado por Giuliani de “gênio da luta contra o crime”, Jack Maple, que foi o iniciador dessa política no metrô antes de estendê-la à rua, diz, aliás, sem subterfúgios, em sua autobiografia Crime Fighter, publicada em 1999: “A teoria do vidro quebrado é apenas uma extensão do que tínhamos o hábito de chamar a ‘teoria dos testículos despedaçados’ (breaking balls theory)”. Originária da sabedoria policial comum, que estipula que se os policiais perseguirem com insistência um criminoso notório por pequenos crimes, ele acabará, vencido pelo cansaço, por abandonar o bairro para ir cometer seus delitos em outro lugar.


Enxurrada de bobagens transatlânticas

O mestre de obras da política policial de Giuliani debocha abertamente dos que acreditam na existência de uma “ligação mística entre os incidentes menores provenientes da desordem e os atentados criminosos mais graves”. A idéia de que a polícia poderia fazer baixar a criminalidade violenta combatendo incivilidades parece-lhe “patética” e ele dá uma grande quantidade de exemplos contrários tirados de sua experiência profissional. E compara o prefeito que adotasse essa tática policial a um médico que “fizesse um lifting num canceroso”, ou a alguém que fizesse caça submarina e pegasse “golfinhos em vez de tubarões”.


Considerada pouco inspirada, passiva e corrompida, a polícia de Nova York transformou-se numa “empresa” de “segurança” dotada de recursos colossais

Jack Maple provavelmente ficaria muito espantado se lesse a “Ficha nº 31” redigida pelos “especialistas” franceses do Instituto de Estudos Superiores da Segurança Interna (IHESI), organização de “pesquisa” do Ministério do Interior. Destinada a orientar os prefeitos franceses na redação de “contratos locais de segurança”, essa ficha indica: “Pesquisas norte-americanas mostraram que a proliferação de incivilidades é apenas o prenúncio para um aumento generalizado da delinqüência. As primeiras condutas irregulares, por menores que pareçam, pelo pouco que se generalizem, denunciam um bairro, centralizam sobre ele outros desvios, são o indício do fim da paz social na via cotidiana. A espiral do declínio se inicia, a violência se instala e, com ela, todas as formas de delinqüência: agressões, roubos, tráfico de entorpecentes etc. (cf. J. Wilson e T. [sic] Kelling, A teoria da vidraça quebrada). Foi com base nas constatações dessas pesquisas que o chefe de polícia de Nova York estabeleceu uma estratégia de luta chamada de ‘tolerância zero’ contra os provocadores de incivilidades, o que parece ter sido um dos fatores da maior redução da criminalidade nessa cidade15.”

É difícil conter um sentimento de incredulidade diante de uma tal enxurrada de bobagens transatlânticas. Pois a tática do assédio policial aos pobres implementada por Nova York é só a aplicação plenamente assumida das “teorias” autóctones baseadas no bom senso prático dos policiais. E esse bom senso não faz, no caso, grande sentido.
Justificativa para “limpeza de classe”

Orientada pelos dois melhores especialistas norte-americanos, uma avaliação rigorosa do conjunto dos trabalhos científicos destinados a testar a eficiência da polícia em matéria de luta contra o crime concluiu que nem o número de policiais envolvidos na batalha, nem as mudanças internas de organização e de cultura das forças da ordem (como a introdução da polícia comunitária), nem mesmo as estratégias de levantamento dos locais e dos grupos com maior propensão para o crime (com “exceção possível e parcial” dos programas visando ao tráfico de rua de entorpecentes) tiveram por si só impacto sobre a evolução das infrações. E, como última ironia, os autores designam o dispositivo “Compstat” e a “tolerância zero” como “os candidatos menos plausíveis para explicar o recuo da criminalidade violenta” nos Estados Unidos...16

Esses quatro mitos científicos provenientes do além-Atlântico encaixam-se de modo a formar uma cadeia de aparência silogística que permite justificar a adoção de uma política de “limpeza de classe” essencialmente discriminatória. Baseia-se, na realidade, numa equivalência entre agir fora das normas e estar fora da lei, visa bairros e populações previamente suspeitas – quando não consideradas previamente culpadas. Se é verdade que a sociedade norte-americana foi pacificada pela ação da polícia – enquanto outros países são atingidos por uma “onda” de crimes – graças à política de “tolerância zero”, que por sua vez se baseia numa teoria criminológica sólida (a da “vidraça quebrada”), então como não se apressar em importar essas noções para pôr em prática os dispositivos que elas parecem fundamentar na razão? Na realidade, as quatro propostas-chave da nova vulgata de segurança made in USA são desprovidas de qualquer validade científica e sua eficácia prática origina-se numa crença coletiva sem fundamento na realidade. Reunidas, servem de rampa de lançamento planetário a uma fraude intelectual que, dando um aval pseudocientífico ao ativismo desordenado dos serviços de polícia, contribui para legitimar a mudança para a gestão penal da insegurança social que, por toda parte, é gerada pelo não comprometimento econômico e social do Estado.


(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Cf. Loïc Wacquant, Les prisons de la misère, ed. Raisons d’agir, Paris, 1999.
2 - Ler, de Annie Collovald, Violence et délinquance dans la presse: politisation d’un malaise social et technicisation de son traitement, Editions de la DIV, Paris, 2000; e, de Serge Halimi, “L’insécurité des médias”, in Gilles Sainati et Laurent Bonelli (org.), La machine à punir, ed. Dagorno, Paris, 2001.
3 - N.T.: O Chefe de Estado de que fala o texto é Jacques Chirac, reeleito recentemente.
4 - Ler Actes de la recherche en sciences sociales, nºs 138 e 139, junho e setembro de 2001, sobre o tema “L’exception américaine”. Ler também “L’Amérique dans les têtes”, Manière de voir, nº 53.
5 - Ler “Ce vent punitif qui vient d’Amérique”, Le Monde diplomatique, abril de 1999.
6 - Le Figaro, 18 de junho de 2001. Estudo retomada por France Inter: cf. “Le Far West de Radio France”, Le Monde diplomatique, agosto de 2001. Ler também, de Pierre Rimbert, “Envahissants experts de la tolérance zéro”, Le Monde diplomatique, fevereiro de 2001.
7 - International Crime Victimization Survey é uma pesquisa por questionário feita com famílias a cada quatro anos desde 1989 sob a égide do Ministério da Justiça holandês, que compara as taxas de “vitimação” criminal nos principais países desenvolvidos.
8 - Ler, de Laurent Mucchielli, Violences et insécurités. Fantasmes et réalités dans le débat français, ed. La Découverte, Paris, 2001, p. 67.
9 - Ler, de George L. Kelling e William H. Souza, “Does Police Matter? An analysis of the impact of NYC’s Police Reforms”, Nova York, Manhattan Institute, Civic Report., nº 22, dezembro de 2001.
10 - Ler, de Jeffrey Fagan, Franklin Zimring e June Kim, “Declining Homicide in New York City: A Tale of Two Trends”, Journal of Criminal Law and Criminology, 88-4, verão de 1998, pp. 1277-1324.
11 - Sobre o funcionamento diário do tráfico de crack em East Harlem, ler, de Philippe Bourgois, En quête de respect. Le commerce du crack à New York, Editions du Seuil, Paris, 2001.
12 - Ler, de William W. Bratton, com Peter Knobler, Turnaround: How America’s Top Cap Reversed the Crime Epidemic, Nova York, ed. Random House, 1998, p. 229 e 309.
13 - N.T. Há aqui um trocadilho em francês (arrêter les voleurs d’œufs permettrait de stopper les tueurs de bœufs) que não pôde ser mantido na tradução.
14 - Cf. Loïc Wacquant, “Désordre dans la ville”, Actes de la recherche en sciences socials, 99, setembro de 1993; e, de Bernard E. Harcourt, “A Critique of the Social Influence Conception of Deterrence, the Broken Windows Theory, and Order-Maintenance Policing New-York Style”, Michigan Law Review, 97-2, novembro de 1998, pp. 291-389.
15 - Institut des hautes études de la sécurité intérieure, Guide pratique pour les contrats locaux de sécurité, ed. La Documentation française, Paris, 1997, pp.133-134. Sobre o IHESI, ler, de Pierre Rimbert, op. cit.
16 - Ler, de John E. Eck e Edward R. Maguire, “Have Changes in Policing Reduced Violent Crime?”, in Blumstein, The Crime Drop in America, ed. Cambridge University Press, Nova York, 2000.

Fonte

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

ODEMAR LEOTTI NO O REBATE


O QUADRO ESTÁ SE ROMPENDO?


ODEMAR LEOTTI*


Mãos espalmadas. Dedos maltratados como o de uma toupeira que acaba de emergir de um buraco das profundezas. Aqueles cinco dedos faziam parte de um cenário infinito que começa pelas unhas arrebentadas pela força de forçar a parede. Parece querer dar-se ao mundo que sufocou o seu corpo em seu desejo de ser em seu pulsar intenso. A parede que nos separa da vida, que encobre nossa porosidade e impede nossos impulsos de manifestarem-se. A parede vai sendo pouco a pouco rompida com aquelas mãos frágeis, mas que se tornava poderosa na ânsia de vazar essa separação que parecia irreparável. Olhando um pouco abaixo podemos ver a outra mão. Quase a outra mão. Três dedos como três irmãos de uma mão irmã da outra mão. Mal sentimos esse detalhe do corpo. Duas mãos: uma busca a saída enquanto a outra se apóia para segurar o corpo da força esmagadora da gravidade terrena. Parece que o peso da gravidade que prende o corpo ao chão se equivale ao peso da moral que o deserta da frêmita vida terrena e afasta o ser do emaranhado do mundo. Aqueles dedos parecem dar expansão à angústia do olhar na busca de romper a parede que separa o desejo da vontade de potência do corpo em seu pulsar dos desejos incontidos. À frente três dedos se agarram à parede nessa luta ininterrupta da vida, ou melhor, da sua falta, da sua intoxicação pelo discurso implacável de uma verdade sufocadora dos sentimentos impulsores. A parede parecendo os ensinamentos de tantos anos que tornam o corpo como uma cela dos desejos incontidos. Grades e mais grades, cimento e mais cimento, paredes e mais paredes dilaceram, sufocam, enterram em vida o ser do impulso, injeta nos sentimentos uma vontade que parede própria de não se realizar com a vida em seus instantes eternos comandado pelo perigo da vida como jogo. A história dos corpos parecendo ser como o ser de um presente fruto de um passado construído por uma história que vê a vida como uma falta e o tempo como um corrigir-se constante. Parece a história de um presente oferecido em holocausto ao futuro prescrito. Esse quadro moderno que rompe com o ser como fruto do emaranhado do mundo. Esse quadro moderno que faz com que as palavras desertem do mundo. Esse quadro que quer um ser fora do mundo. Um ser preso a uma verdade purificadora. O ser do mundo parece irromper querendo vazar essa parede. Essa parede constituída pelo discurso que fez do corpo seu próprio arquiteto, engenheiro e pedreiro. Passamos a vida a carregar a argamassa para construir nosso próprio calabouço. Esse quadro-prisão está sendo rompido? Olhando um pouco no sentido contrário do artista, vamos do mais próximo ao mais além. A parede inóspita e fria traz em suas marcas sinais dos tempos. Para que ela fora criada? Pastilhas que se queriam belas posam agora como jazigos de gentes. Marcas do tempo esculpiram nela marcas de atitudes: alegrias, tristezas, românticas dos namorados que insistem em dar eternidade ao eterno e no momento eterno marcam arvores, paredes, muros, areias da beira do mar. Marcam o momento da eternidade como que em desespero ou pleno prazer, que seja lá o que for. Marcam aquele momento como que implorando para que nunca mais se acabasse e como que não querendo voltar a um vazio árido da vida. Aquela parede agora marcava outra cena. Aparecia nela uma inversão do artista. Parece que havia algo a inverter-se. Parece que nascia ali um quadro em seu avesso. A obra sufocada invadindo o quadro e querendo sair dele. Seu gesto nos oferece em cena um corpo que se quer sair do espetáculo do corpo prometido. Parece não mais querer ser como o animal da promessa, da dívida eterna. Parece que se quer saindo de uma luz que escurece para buscar a luz do cotidiano: ali onde a vida, que se faz desregrada sob o peso do regime enquadrador. Como que no desespero tenta se livrar de outro quadro que o enquadra como corpo enjaulado na essência segregadora que separa a vida de sua rebeldia. Reparem a moldura. Esculpida com aquelas mãos frágeis e que se cria em força no desespero de sair das entranhas do quadro. Uma mão que parece abrir brechas para tentar gritar a alguém que o tirasse dali. Parece que se prende o corpo para conter seus desejos desenquadrados. Os quadros são pintados pelo artista que por sua vez é pintado pelo próprio artista. Seria como que o corpo representado passa a representar a si representando os outros. Um ser do conhecimento fora da vida que quer dar lugar ao invisível. O invisível, esse lugar onde a vida se embeleza. Esse lugar da liberdade da vida que não podemos nomear conceituar, colocar verdades definitivas. Parece que é aí que se quis implantar uma verdade. Uma verdade para o ser definitivo. Uma verdade como um dique para conter as formas múltiplas do desejo. Fica fora do quadro os corpos rebeldes que não se reduzem aos limites do atelier. Eis nosso quadro do avesso. Uma moldura irregular. Uma moldura esculpida pelo corpo jogado para dentro de calabouço para ficar fora do quadro. A inquietude que desmancha a harmonia fez com que saísse do enquadramento. Logo atrás vem a escuridão celular. Essa escuridão que o corpo quer sair. Parece isso. Ou seria esse espaço a própria pintura do quadro? Seria aí o calabouço dos infiéis ou o espaço reinventado para os corpos? Seria então a rebelião das subjetividades subordinadas? Onde estão esses corpos rebeldes? Não estariam dentro de nossos próprios corpos? Essa liberdade que nos ofereceram não seria a prisão de nossos desejos? Não seria uma prisão construída com a parede de uma liberdade prometida. Ou um corpo prometido que já nasce em dívida? Não seria a vida essa cela que queremos sair. Ali fora dela seria o cotidiano onde reina a frêmita vida? Quem está ali preso? Que corpo seria aquele? O seu? O meu? De quem seria esse corpo? O escuro seria a condenação dos que não aceitam o sol enquadrado pelo artista luminar? Parece isso. O que fazia a discórdia daquele espaço e o que contém de sombrio são os olhos brilhantes que fustigam o pequeno espaço esculpido pelas mãos arranhadas e sujas. Eis aí mais uma parte de um corpo que parecia uma única coisa. Dez unhas de dez dedos que fazem parte de duas mãos e de um corpo que se quer sentir e que é arremessado ao calabouço dos infiéis. Mas esse corpo quer voltar sempre. E quem está com a chave que prende o corpo a não ser nós mesmos? Sim! Eis o pior de tudo. Abrimos fendas em nós mesmos. E fechamos as fendas rapidamente. Fortaleza que mais parece prisão de nós mesmos. Os olhos como que pedindo a alguém que tirassem aquele corpo daquela solidão perversa. Aquele olhar parecia o último espaço onde ainda habitaria uma ínfima vontade do desejo. Mas não nos atemos unicamente ao olhar. As mãos, como guerreiras que fazem a frente da batalha tentam romper a escuridão e encontrar a luz de fora. Seria o romper do quadro de Velásquez? O pintar o quadro do contrário? Ou a ruína das tintas que deu volume à vida como representação? Emergir do fundo de um tempo clássico que pintou uma vida representativa? Destituir-se da carapaça de sua verdade luminosa que o século dezessete nos herdou? Descascar a máscara que o dezenove a fez mármore. Romper com uma positividade que quer corrigir o mundo, silenciar o que entenderam como corpo impuro fruto dos desvios. Ver emergir no século vinte a inquietude de um tempo enganoso que nos rouba a vida. Seria isso o que representaria aquele olhar? Colocar do avesso o quadro pintado na época clássica, repintado a partir do seu próprio desdobramento, onde os protagonistas tomam em vida e se fazem e fazem os outros. Fabricam invenções a partir de um lugar distanciado da vida frêmita do formigamento do instante eterno e profano. Eis aí o que esse olhar parece nos querer mostrar em sua angústia de um corpo preso às paredes do tempo: um tempo que busca uma origem verdadeira e essencial e que dedica ao corpo um ódio eterno que mata a sua eternidade do instante e o prende nas paredes da moral civilizadora e monocórdia. Parece que as paredes vão sendo rompidas. Parece que o quadro de Velásquez volta da emergência de seus protagonistas invisíveis. Parece que eles despontam de um lugar da luz dilaceradora do luminar da eternidade do instante ininterrupto. Parece que buscam a luz de fora. Ou a luz de dentro sufocada por uma pseudo-luz? O que podemos pensar dessa cena? O quadro rompido? O quadro se rompendo em suas entranhas onde habitamos? Somos essa parte do cenário escondido que vão sendo devassadas pelas mãos frágeis que tentam fazer emergir o forte impulso do desejo? Somos seres que não se enquadram? Agora é Foucault quem fala: “O homem se despedaça à frente de Deus”. Deus não está no singular. O geral nunca vai engolir o ínfimo e infinito espaço do desejo. O desejo é o lugar incontido. O desejo tem em suas entranhas incorrigíveis o efeito rizomático como nos falou Deleuze. O ser não se enquadra no definitivo. O ser é in - determinado. O ser é in-definitivo. O ser é in-devassável. O ser é in-do, é sendo no mundo a todo instante. O ser da vida não se enquadrou na linguagem que ofereceram a ele como última morada. Não se enquadrou na vida classificada, generalizada. Não se enquadrou no trabalho, na produção. O que é esse ser do corpo. Esse lugar intocável que não aceita a morada que lhe é oferecida? O sentir: esse lugar que não se acha e que nos acha...Nos fustiga, nos põe a romper paredes onde somos presos e carcereiros: esse lugar paradoxal em que somos corpo e alma ao mesmo tempo. A vida seria esse misturar de alma e corpo? Não há essa separação? O que é essa vontade de verdade que se opõe ao formigar do mundo em sua eroticidade? Ela está se arruinando? Enfim: o quadro está se rompendo? Foto:www.pensamente.wordpress.com/2006/05/06/desespero

Fonte: Jornal o Rebate

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

MÃES NÃO SE RENDEM JAMAIS...





Mulheres do movimento Mães do Brasil fazem passeata por jovens desaparecidos no Rio


RIO - Cerca de 20 mães do movimento Mães do Brasil fizeram uma passeata da Cinelândia até a Central do Brasil na tarde desta terça-feira. Durante a manifestação, elas aproveitaram para entregar ao secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, um dossiê sobre o desaparecimento de 14 crianças e adolescentes, entre elas Larissa Gonçalves Santos, seqüestrada em 31 de janeiro na Favela Barreira do Vasco, em São Cristóvão. (Veja fotos da passeata)

O documento com relatos das mães e testemunhas dos seqüestros é resultado de uma investigação da ONG Portal Kids realizada durante quatro anos, e que levou a prisão, no último dia 7 de fevereiro, de Fernando Marinho de Melo. Desde 2004, o Portal Kids investiga Fernando, também apontado como suspeito de participar do seqüestro de Thais de Lima Barros, de 9 anos, ocorrido em 22 de dezembro de 2002.

As informações reunidas pelo Portal Kids, segundo a presidente da Ong, Wal Ferrão, apontam Fernando como suspeito de vários outros seqüestros de crianças e, segundo a família de Larissa, teria sido reconhecido por oito testemunhas do seqüestro. Além da investigação, as Mães do Brasil entregaram ao secretário um pedido para que o caso de Larissa continue sendo investigado pela 17ª DP (São Cristóvão) até sua conclusão.

Larissa estava sozinha em casa com um primo de 8 anos, na Barreira do Vasco, quando foi seqüestrada. Segundo a família, testemunhas teriam dito que o suspeito entrou na casa alegando que ia consertar uma TV e um rádio e pediu que ela entrasse no carro com ele. De acordo com um taxista, os dois desceram na Rua Uruguaiana, perto do Camelódromo, onde um ambulante teria visto a menina mordendo o braço do homem.


Fonte: O Globo.

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