sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

IMPOSSIBILIDADES


IMPOSSIBILIDADES



por Paulo da Vida Athos*





Impossível descrever o amor.

Mas se eu tentasse,

diria que nele há um pouco de ti

em tudo.


De tuas digas,

de teus carinhos,

do cheiro de tua pele,

do perfume te teus ais,

desses encantamentos todos

que com graça e liberdade,

pude até agora viver.


Porque o amor é como a liberdade:

impossível de se ver,

intocável em sua essência,

perceptível apenas nos sentidos.


Não tenho como descrever

o amor ou a liberdade.


Posso vivê-los, no nós.

Mas não sei como vivê-los, sem nós.



*Paulo R. de A. David

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sábado, 20 de janeiro de 2007

Rito de Amor


CARTA A UMA POETA







Paulo da Vida Athos*






Minhas palavras possuem

um conteúdo quente de saudade.

E a melodia desmaia no escondimento,

nesse recôndito de minhas fábulas poéticas,

nesse silêncio de Deus,

onde te encontro cálida à minha espera.


E, te recebo emocionado,

revivendo as emoções de estar em ti mil vezes,

por segundo,

e te aproximo de minhas folhas amareladas

em busca de inspiração para sobreviver

ao colóquio inerente da alma.


Fico contigo, me perdendo dentro delas,

sentindo seus braços numa pressão carinhosa,

chegando ao coração num rito estranho de amor...


Minha vida é uma saudade diária,

surdinando no tempo os passos que nunca demos juntos,

na realidade que assiste nosso amor ser propagado ao infinito,

no entendimento com Deus.


Fico contentando-me com o limitado,

quando minhas mãos, parecem ser conduzidas por ti,

marulhando dentro do peito, que bate convulsivamente

nas paredes apertadas em nosso mundo e, na minha espera.


E, fantasio tudo muito depressa!


Farto-me da alegria e, te espero,

mesmo que jamais testemunhe teu chegar...


E quando digo que te amo, é com o apetite infinito

de mensagens revelando e levantando do chão,

uma esperança que não acaba nem sacia...


A tua sombra consegue atar meus pensamentos

numa felicidade perambulante, benevolando

a febre de um beijo que jamais trocamos,

dos hábitos que fariam de nós,

amantes felizes perante o amor...


Meus lábios querem abandonar-se num sorriso,

mas os olhos se perdem na saudade simultânea

dos segundos.


Fica comigo uma vontade enorme

de medir teu coração,

nas circunstâncias da vida

e nas razões dos sonhos.


E limitando tudo,

a impossibilidade.


Fica comigo o silêncio obscuro.


Piedoso de minha loucura,

tentando discutir a minha angústia,

o meio-nada, o meu telhado de vida

que ameaça desabar em tua ausência eterna.


E meu cabelo revolto ao vento

que canta alto este amor ardente e,

sonhado.


E fico seguindo caótico as horas de tua chegança.


Cego.

Coração exausto da espera

de toda uma vida.


E quando chegas,

novamente vejo auroras e crepúsculos,

quando sinto teus olhos me limitando a ser

mais uma vez, extasiado.


Quero derramar lamentos culpando-te

pela ânsia...


Louco, afoito, venerar teu rosto

acreditando que vieste dos céus

e que tens nas mãos a chave de todos os meus anseios,

capaz de diminuir distâncias

e transpor galáxias...


E quando me abraças...

mergulho em ti, para a loucura.


E se te coloco inteira,

em minha vida.


Me coloco inteiro,

em tuas mãos...


*(PRAD)


sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

NOTURNO



NOTURNO




por Paulo da Vida Athos



Gosto da noite que se aproxima,

de seu silêncio adivinhado,

de seus mistérios e fantasias

e do perfume suave que a brisa

forasteira e fugidia,

rouba da flor ou da mulher que passa.


Gosto do que na noite existe.

Das estrelas,

das luzes das favelas,

dos casais ocultos nas sombras mais pesadas,

dos murmúrios ininteligíveis

e até do bêbedo mal educado,

desbocado,

que as vezes vejo passar.


Gosto de nuvens esbranquiçadas de luar,

de mar anoitecido marulhando nas pedras,

dos ruídos indecifráveis das folhas secas,

soltas ao vento,

empurradas pelas calçadas, pelas ruas,

cancionando solidão sem só

e sem tristeza.


Gosto da noite envolvida em lua,

quando acendo um cigarro,

trago

e expulso a fumaça que se tinge em névoa branca,

antes de se volatizar no espaço.


Gosto das noites calmas,

tinturadas de estrelas,

perfumadas,

sensitivas,

transmissivas,

transitivas...

com o amor transitando em nós!



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quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

ORAÇÃO DE UM PESCADOR


ORAÇÃO DE UM PESCADOR






por Paulo da Vida Athos



Que não se desliguem de mim, os sonhos.
Nem a liberdade.
Que não se desfaça em mim a vontade,
De seguir em frente, de findar viagem,
Que mais que finda é início,
De novo sonho,
De infindas vias, de estradas mil.
Onde a realidade se mistura com a miragem...


Que não me deixem órfãos, os ideais.
De liberdade.
Que não se esmaeça em mim a saudade,
De abraçar o ontem, de me fazer aragem,
Que mais que brisa é vento,
De novo barco,
De novas velas, de mares meus
De mergulhos mil, de descobertas infindas,
Onde as águas se misturem com a viagem.


Que não se despeça de mim, o mar.
Nem o amar.
Nem o amor à liberdade.


Pois se isso acontecer,
Não mais serei o mar,
A brisa.,
O sonho,

Ou a Liberdade...

Serei espuma do nada.
E em nada me tornarei...


*Oração feita em homenagem e para proteção de um pescador, navegante, guerreiro, sobrevivente, desses que navegam em qualquer mar, e meu grande amigo P.P.V.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

CARTAS DO INFERNO I











Mamãe,




Quando a noite chegou trazia um vento frio e cortante. Por volta das dezenove horas já a noite se fechava, apresentando um céu despido de estrelas. No ar, uma umidade sentida em cada plano tocável embalsamava o material e imaterial de cada homem e de cada sentimento.

Noite enunciável...

Existem sensações premonitórias e inexplicáveis, que têm a qualidade de preparar o ser humano para fatos e circunstâncias inesperados e, normalmente, insuportáveis.

Houve premonição coletiva, que outra forma definirei?, a partir das dezenove horas até às vinte e uma horas, quando a tensão chegou ao auge e se corporificou, bizarra e inumanamente, numa explosão de ódios, medos e fúria, numa canção de sangue.

Agora os ponteiros do relógio que carrego acusam que quarenta e oito minutos se escoaram, desde as vinte e uma horas, e, no silêncio anormal que envolve o prédio (um mundo à parte do mundo), procuro pensar que o amor existe, e existe a paz, a felicidade, a ternura e a compreensão.

(Seria tão fácil para o homem viver em um mundo de amor. As horas registrariam na mente momentos de felicidade, a felicidade geraria sorrisos, os sorrisos constituiriam a compreensão que engrandeceria o diálogo da Vida que existe em nós).

Estou um pouco cinzento devido a certos acontecimentos que se desenvolveram, envolvendo homens que aqui se encontram. Por mais que o tempo tenha passado, por mais que meus olhos tenham testemunhado fatos semelhantes, para mim será sempre uma novidade que encerrará uma dor e uma decepção.

Meu conforto é saber que existem pessoas assim como a senhora e outros que sei existirem, de alma assim, igual.

Amanhã espero que o céu amanheça muito azul; que meus pombos não deixem de revoar em bando; que as flores floresçam com maior intensidade de cor e perfume; que os acordos de paz superem as guerras; que o sol elimine as sombras; que a criança abandonada encontre um novo lar; que os hospitais fiquem mais vazios; que a delinquência feneça; que o amor entre os homens se propague sem distinção de raça, credo ou partido... e que, sobretudo, a existência dos C.... F... não seja apenas um sonho meu.

Mamãe, aproveito e envio esta poesia de Giuseppe Ghiaroni, “Dia das Mães”, que ofereço à senhora, com meu muito, mas muito carinho mesmo.

Beijos para todos.

Para a senhora, um beijo especial, com meu carinho e minha saudade.

Do seu filho,

Eu.


Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1977.

Foto: Galeria do Complexo Penitenciário da Frei Caneca, implodido.


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sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

OUÇA-ME...




Ouça-me



Tem gente que vive saindo na porrada com o presente, com a alma prenha de insatisfação e uma esperança cabeçuda de ser feliz no ontem.

Coisa de bicho homem que prefere dar uma de cachorro abandonado, olhar perdido no passado, enquanto o tempo sacana como ele só vai desfilando na Sapucaí.

“- Foi um rio que passou e minha vida...”

Aí, mané, não tem jeito mesmo. O rio passa e sua alma canina tem mais é que ficar uivando, na bronca, pelo tempo que você deixou passar, babacamente, numa esquina qualquer , pensando em mil coisas que deixou de fazer, em mil digas que deixou de dizer, em algumas bocas que deixou de beijar, só por que a porra do amor que vive em você é tão besta quanto quem o abriga e te sacaneou legal, te deixando plantado, sedado, enquanto o tempo passava sem parar sua evolução, como minha Portela querida.

Tem mais que cair no samba, tem mais que cair na vida!

Ou está pensando que regando lembranças com lágrimas colherá realidade? Tá. Me engana que eu gosto.

Vai ser feliz no ontem? Vai nada!

Muito menos no amanhã poderá viver felicidade alguma.

O ontem passou, é sonho ou pesadelo, o amanhã é visão e talvez você nem chegue lá.

Se tem um momento em que poderá viver qualquer coisa que não seja essa lamentação idiota, é o presente, o hoje, o agora, o já!

E, já!

Não tem essa de amanhã. Isso é papo de cigana ou pai-de-santo marmoteiro.

A mim não engana. Não vou na onda.

Mas se não consegue cair no samba, aproveita a solidão, faça uma poesia ou procure uma pessoa cheirosa, afinal você está sozinho e tem mais que preencher vazios.

Mas não o faça com lembranças, qualquer que seja, muito menos com dor.

Nunca escreva poemas de dor!

Pratique o amor, ame. Se entregue sem medo.

Afinal, você não é eterno e não tem nada a perder.

Curta cada minuto como se fosse o último. Beije. Beije muito, beijar faz bem à saúde.

Curta manhãs de sol, areia no corpo, mergulhe e ouça o murmúrio do mar.

Não durma nas noites de lua cheia e não perca o perfume que o jasmim esparrama nas madrugadas.

Ame as tardes, mesmo aquelas que não são brilhantes como as tardes de abril.

Tente ouvir o canto de um rouxinol, deixe seu olhar bailar com o vôo imprevisível de um beija-flor.

Olhe crianças brincando, você não sabe o quanto isso me deixa feliz!

Fique em uma tarde de outono próximo a uma escola, na hora do recreio, e ouça a canção da vida tomar o céu de sua tarde. A vida é sempre juvenil...

Faça isso, quando nada, por mim.

Você pode até dispensar. Mas eu não abro mão de ser feliz.

Com carinho, seu coração.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

CARTA A PEDRO


Meu filho


Você é uma pessoa especial, nasceu especial e tem uma alma especial.

Você não é apenas o meu melhor e maior amigo e aquele a quem confio meus segredos e meu coração, mesmo que nenhum som saia de minha boca.

Seu coração é uma grande nave onde as pessoas buscam abrigo ou nele navegam pelos céus do tempo.

Sei que muitas nem merecem. Mas você nem liga...

Gosta que se deitem à sombra dos teus jardins interiores e se alimentem.

Você sente felicidade em dar felicidade.

Para você - que nada espera em troca do tempo e da vida que dedica aos que o cercam e aproveitam para deitarem-se à sombra dos seus jardins interiores e alimentar-se da sua amizade - a grande recompensa está na felicidade que sente em dar felicidade aos que o rodeiam.

Por isso, a mais linda das mulheres que conhecemos, a Vida, te ama tanto!

Saiba que a vida e o mundo em que vivo são mais bonitos: por que você existe.

Pessoas como você, que amam o Amor, tornam tudo isso aqui muito mais interessante, muito mais mágico.

Não posso conceber um mundo sem seu sorriso, o eco de sua voz, a luz de seus olhos ou mesmo sem o som de seus silêncios siderais...

Seria um mundo muito vazio e triste.

Como disse Gibran, em uma de suas obras, você, sua vida, “pertencem à mansão do amanhã”, onde não poderei chegar “nem mesmo em sonhos”.

E, pensando nisso, quero dizer nessa esquina do tempo que se chama hoje, que te amarei nessa e em todas as minhas vidas.

Mesmo quando meu hoje houver se tornado um ontem e seus olhos estiverem olhando as cores da primavera, por mim.

Com meu carinho maior.

Seu Pai.


Fonte

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