sábado, 29 de dezembro de 2012

Sonhos e recomeços










O ano finda e se desfaz no céu do tempo. 

Vai e leva consigo todas as desesperanças que reinam sobre a terra, as dores que se abrigam no coração das gentes; a fome que ceifa vidas que mal começaram; as guerras e suas inexplicalidades; a intolerância que elimina não as diferenças, mas os diferentes; o desejo de posse que assassina.

Que venha não apenas um ano novo; que venha diferente:

- um ano em que  balas perdidas não encontrem no espaço a vida de ninguém; aliás, que elas sequer existam;

- que o homem ame sua humanidade, e que queira mais ser do que ter, mais sorrir que ferir, mais amar que fazer chorar;

- um ano sem guerras, onde imagens dilaceradas de crianças palestinas, sírias ou libanesas, criança qualquer de qualquer lugar da terra, invada nossas salas, no jornal televisivo do horário nobre, apontando nossa pequenez;

- um novo ano em que os jovens, ricos ou pobres, negros ou brancos, vermelhos ou amarelos, possam andar pelas ruas de nossas cidades, sem medo, estampando na cara o sorriso que emana da juventude; um ano em que nossos jovens não sejam punidos por serem pobres ou negros;

- um novo ano com tolerância para com a diversidade, em que o ser humano tenha liberdade para amar, independente de gênero, para amar sem medo, e caminhar pelas calçadas, pelas praças e pelas praias das cidades, de mãos dadas, cantando um canto de amor e escrevendo na terra uma nova história;

- um novo ano em que nós, os invasores, passemos a respeitar os donos da terra, esses que temos estuprado, escravizado, violentado, queimado ou alagado suas casas, e destruído sua história;

- um novo ano em que os Arara, Araweté, Ashaninka, Asurini, Bororo, Enawenê Nauê, Guarani, Juruna, Yudja,  Kaapor, Kayapó, Kalapalo, Karajá, Kaxinawá, Krahô, Mayoruna, Marubo, Matis, Matipu, Mehinako, Rikbaktsa, Suruí, Tembé, Ticuna, Tiriyó, Waiana Apalaí, Waurá, Wai Wai, Waiãpi, Ye'kuana, não tenham o mesmo destino de extinção que tiveram os Aimoré, Botocudo, Caeté, Canindé, Genipapo, Carijó, Cariri, Caratiú, Icó, Panati, Charrua, Omágua, Potiguar, Tamoio, Tucujú, Tupinambá  e Tupiniquim, ao longo desses cinco séculos de lento contínuo genocídio;

- um novo ano em que lutássemos por eles; somos todos responsáveis.  Afinal, para que a energia acenda a luz em nossas casas, temos aceitado essa prática genocida como se não tivéssemos nada com isso.  Temos sim.  Muito!  Aliás, temos tudo, e, pior, temos usado da confortável capa do cinismo para manutenção de nosso conivente silêncio, de nossa visceral omissão.

- um ano em que iremos para as ruas! Temos que ir para as ruas!  Não apenas porque um presidente deixou de agradar a mídia e aos poderosos, como foi o caso de Collor; não apenas para protestar contra a comemoração em que os assassinos golpistas de 64 acintosamente propagavam cantos àquele período de tortura e morte; temos que ir para as ruas pela liberdade, pela igualdade e pela Vida;

- um ano em que se coloque um fim a guerra às drogas, que apenas tem matado nossos jovens;

- um ano em que nossos juízes sejam Magistrados e não atores, que não façam do STF um palco midiático, que não desonrem a história da magistratura nacional.

Temos que ir para as ruas, sempre que:

- a vida de uma criança indígena estiver em risco;

- uma bala perdida mate um inocente;

- um jovem for assassinado nas periferias;

- um ser humano morrer por falta de atendimento médico;

- não houver vagas nas escolas para todas as nossa crianças e jovens;

- alguém for levado à força para uma internação compulsória porque está exercendo o mesmo direito do outro que bebe uma cerveja ou fuma um cigarro na rua;

- a mídia golpista sabotar as conquistas populares ou criminalizar movimentos sociais;

- soubermos que empresários se unirem a políticos em nome da corrupção e não forem levados a julgamento;

- algum poder ou instituição da República, mancomunado ou não com o golpismo midiático, coloque em risco a Democracia.

Quero um ano em que primemos por dois conceitos fundamentais: igualdade e justiça social.

Quero um ano em que, ao seu final, possamos todos dizer:  “-Como foi feliz o ano que passou!”

Então, que seja assim!

Feliz 2013 para todos!

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