domingo, 5 de dezembro de 2010

A milícia é pior que os gangues. Não são negros de bermuda, estão entre nós. Elegem deputados, vereadores.

"Esta guerra vai ter muitas batalhas" mas a mais importante é a "invasão da cidadania"



Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro


Zuenir Ventura é um cavalheiro. Difícil imaginá-lo a perder a cabeça. Trata os amigos das favelas e da Zona Sul da mesma forma: "meu querido", "minha querida". Ao fim de meia hora já quer resolver os nossos problemas. Tem 1,80 de altura, vai fazer 80 anos, não passa propriamente despercebido.

E foi este homem que há 16 anos se enfiou na favela Vigário Geral, Zona Norte do Rio de Janeiro, depois de um massacre em que morreram 21 pessoas. Queria conhecer o mundo dos morros, escrever sobre as raízes da violência, e acabou por chamar a esse livro
Cidade Partida.

A expressão ficou um símbolo do Rio. De um lado, a vida-boa cá em baixo (Ipanema, Leblon, Copacabana). Do outro, a vida das favelas lá em cima (da Rocinha à Zona Norte).

Separação, para não dizer
apartheid, porque o brasileiro nunca deixa de ser cordial.

Agora, uma semana depois de o Estado ter ocupado o Complexo do Alemão, quebrando uma fronteira de décadas, Zuenir acha que "pode ser um meio, mas não será um fim", porque "esta guerra vai ter muitas batalhas", e as decisivas não serão militares.

Acordou como todas as manhãs às seis, mas atrasou a caminhada matinal para as oito, hora a que recebe o PÚBLICO no seu apartamento de Ipanema. Tem estantes no patamar. O outro morador do piso é o filho. Lá em baixo há grades e porteiro, como em boa parte da Zona Sul. De qualquer forma, Zuenir pensa que se alguém roubar os livros é porque quer ler, e então está bem.

Esplendor no asfalto

Descemos: Ipanema a uma quadra do mar. Vida-boa, como não? Por exemplo, este céu depois da chuva torrencial de ontem, este mar transparente, estas árvores. O asfalto no Rio parece uma brincadeira ao pé da natureza. A natureza domina sempre. Há dias em que mete medo. E há dias como hoje, um esplendor.

Atravessamos a marginal para o calçadão rente à praia. Cocos frescos, gente a correr, rapazes a jogar vólei, mergulhos.

Ao fundo, na ponta direita, está a favela do Vidigal, que do outro lado da encosta se prolonga na Rocinha. Imaginem a vista: é como um imenso miradouro sobre Ipanema.

E na ponta esquerda, o morrinho do Arpoador onde ninguém mora, dá só para sentar na pedra e ver o sol a pôr-se, lá na favela do Vidigal.

"O Vidigal está tranquilo, mas se comunica com a Rocinha, e há uma certa tensão", diz Zuenir, caminhando na direcção do Arpoador, mar à sua direita. "Eles estão com medo que uma facção do Complexo do Alemão tenha ido para a Rocinha."

Embora o Alemão fosse domínio Comando Vermelho e a Rocinha seja domínio Amigos dos Amigos. Nomes de gangues rivais.

"Reparou que o
Globo nunca lhes chama Comando Vermelho ou Amigos dos Amigos? Porque acha que dar nome institucionaliza essas quadrilhas." E Zuenir não discorda.

O sol já queima. Ainda não são nove da manhã.

Em 2007, o Estado também invadiu o Alemão, coração do tráfico no Rio. "E esta parte da cidade, o asfalto, comemorou. E em 2008 teve a invasão da Vila Cruzeiro, o BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais] botou lá a bandeira e tudo. E depois tudo voltou ao que era."

Mas agora tudo indica que não será assim. "A diferença é ocupação em vez de invasão. Antes, era entrar, matar e sair. Agora é entrar e ficar por tempo indeterminado. Isso altera muito. O Beltrame [secretário de Segurança do governo do Rio] e o Sérgio Cabral [governador] aprenderam com a experiência desastrada da estratégia de invasão, que a gente aqui chama de "enxugar gelo". Você ia, matava meia-dúzia, o pessoal aqui de baixo dizia "Que óptimo, é isso mesmo, tem de matar esses caras", sem perceber que isso não tinha eficácia nenhuma."

Castelo na areia

A batalha decisiva, diz Zuenir, é "invasão de cidadania". Sem isso, tudo será como este castelo erguido no calçadão, diante do qual paramos, uma elaborada construção de areia com cúpulas orientais, nascida de uma qualquer ilusão das Mil e Uma Noites. Pode desfazer-se em segundos.

O poder do tráfico instala-se num vácuo, e é esse vácuo que é preciso preencher. No fim de 2008, o governo do Rio avançou com as UPP, Unidades de Polícia Pacificadora, que chegam aos morros para ficar. Já há 13, abrangendo 200 mil pessoas. O resultado prático é uma tomada gradual de território ao tráfico.

"As UPP são o começo da reunificação da cidade", resume Zuenir, acenando com a cabeça para cumprimentar conhecidos no calçadão. "É um primeiro passo. Importante, mas um primeiro passo. A seguir tem de haver invasão de cidadania, hospitais, escolas. Não basta polícia. Foi fundamental reivindicar o território, sem isso nada podia ser feito. Acho que essa nova política de ocupação segue um caminho certo. É positivo que essa mudança tenha ocorrido na cabeça do governador e do secretário de Segurança. Mas é preciso reflectir que não se trata de um fim. Infelizmente esta ainda é uma cidade partida. Falta muito. Foram décadas."

Tudo começa, na verdade, há mais de 100 anos. "Logo depois da abolição da escravatura [1888]. Os escravos foram libertados sem as mínimas condições de trabalho, de alojamento. Todo esse processo foi de exclusão social. Como é que surgem as favelas? A da Providência, que foi a primeira, no Centro, surge quando botaram lá os soldados retornados da Guerra de Canudos [1896-97, na Baía], os mais pobres. Aí, quando fizeram o plano de urbanização do Rio era para ser uma nova Paris. O Centro tinha população amontoada em "cortiços" [aglomerado de habitação colectiva] e a nova urbanização empurrou a gente para a favela, para o morro. "Vai aí para cima." Não havia noção de que a vista mais bonita era aí. Deu-se aos pobres não só a melhor vista como a melhor posição de tiro."

Agora, a Rocinha

Fim da baía. A esta luz, a praia do Arpoador parece um postal. Nem sempre a água está limpa, mas hoje vê-se o fundo, manso. Zuenir trepa as grandes lajes douradas. "Vamos sentar aqui na sombra?" À sombra de uma pedra, com a favela do Vidigal como horizonte.

Porque é que as centenas de traficantes do Alemão não resistiram? Foi devido à mediação de José Júnior, o líder da ONG AfroReggae, que fez a ponte entre a polícia e o tráfico? Não, explica Zuenir. "Ele é um grande mediador de conflitos, mas se não houve violência não foi por causa da embaixada dele. Foi a constatação do poderio do invasor, os tanques da Marinha. Os traficantes fugiram quando perceberam que havia blindados."

Imagem simbólica, captada por um helicóptero do
Globo, na Vila Cruzeiro, a favela ocupada antes do Alemão: "Cerca de 200 traficantes fugindo como se fossem formigas. Foram para o Alemão. E aí teve a invasão do Alemão com tanques que nunca tinham sido usados. Aqueles obstáculos [colocados pelos traficantes] sempre tinham impedido o avanço da polícia. Eles têm umas barras com picos que furam os pneus. E os tanques não têm pneus."

Mas a maior parte dos traficantes escapou. "Uma das poucas falhas da operação foi não prever essa fuga. Se eles tivessem um mapa do local teriam visto que ali tem um sistema de esgoto, um negócio de dois quilómetros que sai longe do Alemão."

Agora, todos esses foragidos estarão dispersos.

E enquanto o Estado se instala no Alemão, com as suas carrinhas do governo, da assistência social, de formação para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, a pergunta é: e a Rocinha, vai ser quando?

"É a grande meta. Tem um valor simbólico muito grande. É a favela mais charmosa. O Alemão é lá na Zona Norte, mas a Rocinha é aqui, está dentro da Zona Sul, é um lugar de turismo. Rocinha e Vidigal, as duas. Já se comparou o Alemão à invasão da Normandia. Foi importante porque era o sistema nervoso central do tráfico. Mas a batalha da Rocinha vai ser difícil e complicada. Não é por acaso que eles não fizeram UPP na Rocinha ainda, e só entraram agora no Alemão por necessidade, quando começaram aqueles incêndios de carros, aquelas bombas [na Zona Sul] e a população entrou em pânico. Foi uma operação improvisada, os traficantes foram tomados de surpresa."

Parece claro que os arrastões, incêndios e explosivos foram retaliações dos traficantes por causa dos avanços da UPP. Mas porque não aconteceram na campanha eleitoral? "Houve a suspeita de que teria havido negociações [entre o governo e os traficantes] para esperar até depois das eleições. Mas não faz sentido."

Zuenir crê que os traficantes aguardaram o resultado da eleição na esperança de que o governo mudasse, e com ele a política das UPP. "E quando viram que ia continuar tudo, o mesmo secretário de Segurança, saíram em represália: "Se continuam com as UPP vamos incendiar a cidade." Ficou claro que era um protesto contra as UPP, por terem atingido o tráfico de forma muito eficaz."

Funk geral

Há uma discussão que o Brasil nem começou: a legalização das drogas.

Quem é que a Rocinha abastece? A Zona Sul. "Tem muitos jovens que são atraídos pelas drogas e pelos bailes
funk."

O
funk tornou-se um fenómeno, diz Zuenir. "O meu guia na noite, quando fiz A Cidade Partida, chamava-se Marlboro. Levou-me aos primeiros bailes funk, que nessa altura eram uma coisa maldita. Os meus amigos diziam: "Você tá doido!" E o Marlboro dizia: "Olha Zuenir, o funk vai tomar conta da cidade." E hoje a classe média dança o funk."

Muito associado ao tráfico.

Mas quase ninguém quer discutir legalização. "A população tem horror disso. Reage como se essa discussão fosse o começo da legalização. Só uma elite quer discutir."

Que pensa Zuenir? "A única certeza que tenho é que a política repressiva não dá. Hoje as drogas são um instrumento de morte muito por causa da repressão. Agora, a liberalização é uma coisa globalizada. Não dá para fazer isso aqui e não fazer nos Estados Unidos."

Para Zuenir, trata-se de uma guerra pós-moderna, de mercado. "Os traficantes vendem o que as pessoas querem comprar." A vantagem do Brasil, diz, é não haver cartéis, redes organizadas com infiltração nas instituições, como na Colômbia ou no México.

Mas o Brasil tem um problema: as milícias formadas por ex-polícias, retratadas nos filmes
Tropa de Elite (I e II), fenómenos de audiência. "A milícia é pior que os gangues. Não são negros de bermuda, estão entre nós. Elegem deputados, vereadores. É uma resistência de classe contra os traficantes. E nessa história toda [ocupação do Alemão], as milícias estão-se divertindo."


Fonte: O Público


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