Relatos de quem vive ainda sob o poder dos milicianos nas favelas do Rio


Os relatos dramáticos de quem ainda vive sob o poder de traficantes e milicianos nas favelas do Rio


Carla Rocha e Natanael Damasceno


RIO - Marcos, um jovem com pouco menos de 18 anos, foi surpreendido por três traficantes quando passava em uma viela da favela. Imediatamente começou a ser espancado. Socos, chutes, coronhadas deram início a gritos interminaveis. Até que, já caído no chão, um pisão no estômago o deixou tão silencioso quanto as poucas pessoas que testemunharam o crime.



Veja imagens da vida nos complexos da Penha e do Alemão após a ocupação


Escondida atrás da porta de sua casa, Ana Maria viu pela fresta a sessão de tortura, em plena luz do dia, que resultou na morte de Marcos. Mas nunca tinha falado sobre esta ou sobre as outras atrocidades que presenciou desde que chegou à comunidade. Ela conta que ali, como em qualquer lugar dominado por quadrilhas, quem vê algo não tem outra escolha a não ser fingir que nada aconteceu.

"Já vi os bandidos pendurarem os meninos de cabeça para baixo para ir cortando pedaços aos poucos. Já vi eles passando com corpos em carrinhos de mão. Já vi quatro deles matar um rapaz e jogarem o corpo em um carro. Depois, ouvi dizer que ele era trabalhador, mas que estava devendo. Mas não sei se é isso mesmo. Procuro não me misturar. Assisto de longe, como quem não sabe nada, pois eles são muito abusados" diz, resignada, Ana Maria.

Por este motivo, a dona de casa - assim como todos os outros personagens desta reportagem - teve o nome trocado para que sua identidade fosse protegida. Ela conta que, por sorte, nunca teve problemas com os traficantes. E que poucas vezes teve que confrontá-los - uma vez, pediu para que um deles não ficasse em sua laje, e foi atendida. Diz também que fica indignada a cada vez que um crime é cometido na porta de sua casa. O problema é que a indignação vem, mas não tem para onde ir.

"A polícia vem aqui, mas come um bom dinheiro. Uma vez viram um sargento rolando no chão atrás de pó para cheirar. Ainda assim, acho que vale a pena que isso aqui seja ocupado. Tem gente rezando todo o dia para essa pouca vergonha acabar."

Depois da retomada do Complexo do Alemão, o desejo de que uma ocupação policial venha acabar como tráfico se difundiu entre outras favelas. Vítima tanto de policiais quanto de bandidos, Joana diz, no entanto, temer pela integridade física dos moradores já que não acredita numa ação policial sem derramamento de sangue.

Corpos e sangue no portão

Vinda do interior do estado, ela se estabeleceu há anos numa fronteira entre duas facções rivais que disputam território.

"Minha vida inteira morei nessa fronteira invisível. Via muita gente morrendo, sendo massacrada, esquartejada. Minha casa foi invadida várias vezes. Via o caveirão deixar corpos no meu portão. Depois eu tinha que lavar o sangue. Nesses últimos oito, dez anos, vi muitas coisas que nunca vou apagar da minha vida" lamenta.

Um dia, Joana teve a casa violada três vezes. Numa delas, por policiais. Ela conta que, durante uma tentativa de invasão à favela, uma quadrilha com um traficante baleado se refugiou em sua casa. Depois que saíram, o bando rival entrou no imóvel em busca dos inimigos. Quando ela achou que a situação se acalmara, foi a vez de os policiais, à procura dos traficantes. Joana teve que se mudar.

"Todos eles foram violentos porque entraram a minha casa e não tinham esse direito. Fiquei sem luz, fiquei sem telefone. Fiquei sem ter espaço na minha própria casa. Eu lembro que os que invadiram primeiro ficavam cantando enquanto matavam as pessoas na minha porta. É uma atitude comum. Até os policiais, quando passam com o caveirão, gritam: "sai da rua, vagabundo; sai da rua, piranha". E riem. Então, para mim, ninguém é bonzinho. São iguais."

Milicianos invadiram casas

Nas comunidades ocupadas pela milícia, a situação não é diferente. Morador de uma favela que já foi dominada pelo tráfico, Jonas conta que os milicianos chegaram na comunidade desapropriando imóveis. Tomaram casas e instalações comunitárias, monopolizaram os serviços e instalaram o terror. Hoje, mesmo enfraquecida depois da CPI das milícias, a quadrilha se mantém explorando negócios por lá.

"O tráfico foi ruim e só levou morte e desgraça. Mas os traficantes não se envolviam com a gente e não cobravam nada. Depois, a milícia chegou cobrando por segurança, todos ficaram chocados."

Criada na Rocinha, Júlia, de 35 anos, mãe de quatro filhos, teve o primeiro contato com a morte aos 9 anos quando foi levada para ver o corpo de um traficante abandonado numa pedra. Os olhos paralisados do bandido nunca saíram de sua cabeça. A menina cresceu e absorveu os símbolos daquele mundo paralelo. Bailes funks, jovens traficantes armados sendo cobiçados pelas garotas mais bonitas do morro e viciados consumindo coca e heroína na sua frente.

"Hoje mesmo vi uma mulher enlouquecida pedindo um pó de dez. Nunca me acostumei com esta feira. Tudo é absurdamente natural. É como se ela tivesse comprando uma fruta. Tem pó de cinco, de dez e de quinze. Escuto isso o dia inteiro" conta ela, que tem a conta de telefone entre os itens mais caros de suas despesas mensais porque liga várias vezes por dia para saber onde os filhos estão.

É difícil passar incólume ao dia a dia da Rocinha. Naquela atmosfera, Júlia acabou, aos 15 anos, namorando um traficante. Lembra que ele estava sempre de fuzil cruzado no peito quando se encontravam às escondidas. Em casa, havia a pressão familiar para que ela seguisse um outro caminho. Embora se recorde que, desde os 5 anos, via uma tia cumprindo um estranho ritual de derreter com uma vela algo que parecia uma pedra sobre um pires. Depois, pedia para a pequena Júlia sair da sala porque ia fazer uma coisa feia.

"O vício está ali na sua porta, dentro da sua casa. Eu nunca fumei nem maconha, mas é um verdadeiro milagre. Meu irmão é viciado" conta Júlia, que, graças ao destino, se separou do bandido por quem se apaixonou depois que ele "vacilou" e foi expulso da favela.

Um dos momentos mais aterrorizantes, segundo ela, foi quando o traficante Dudu invadiu a Rocinha para tomá-la do então chefe do local, conhecido como Lulu, em abril de 2004. Foram dias de burburinho no morro - "todo mundo fica sabendo quando alguma coisa está para acontecer, os próprios bandidos informam, tinha um toque de recolher a partir das dez da noite" - até que uma explosão anunciou o inevitável.

"Era véspera de Sexta-Feira Santa, me lembro como se fosse ontem. Vários bandidos desembarcaram de um caminhão baú da Caixa. Por volta de meia-noite, escutei uma explosão de uma bomba. Foi um estrondo diabólico, parecia que o mundo ia acabar. Depois houve um forte tiroteio, com traçantes, que durou mais de meia hora. Empurrei meus filhos para debaixo da cama - eles não queriam ficar, choravam - e fiquei deitada no corredor. Mas, apesar de tudo, ainda sonho que a Rocinha vai mudar, que vou poder levar meus amigos para conhecer minha casa. "

Com um sentimento oposto, o administrador Osvaldo, de 35 anos, nascido na favela da Maré, sempre quis sair de lá e nunca se viu como parte do lugar. Talvez por defesa, criou um escudo em que, desde a infância, teve poucos amigos. Os anos se passaram, ele fez curso superior, mas a mudança tão desejada ainda não se realizou:

"Passei a vida evitando fazer amizade. Via que algumas crianças eram filhas de bandidos. Não queria me misturar. Imagina uma criança já tendo esta preocupação de selecionar com quem ia se relacionar. Mas fiz isso. Não queria ser mais uma maçã podre no cesto. É complicado. Até hoje vejo a minha casa como um dormitório."

Ao ser perguntado que situação mais o agrediu nestes anos, ele não fala em torturas ou mortes:

"A cumplicidade dos moradores é o que mais me assusta. É você levar uma briga de vizinhos para ser resolvida na boca. Eu acho que isso legitima o bandido. E a violência é a mesma usada pelo tráfico em outros lugares. Os inimigos, por exemplo, são atirados num rio para serem devorados por jacarés."

Ele menciona ainda o desrespeito e a exploração econômica dos moradores.

"O gás é mais caro, o garrafão de água de 20 litros pode custar até R$ 8 quando no asfalto custa R$ 4. É a sobretaxa. Os telefones estão constantemente grampeados, costumamos evitá-los" fala, acrescentando que foram muitas as vezes em que passou semanas fora de casa durante as guerras do tráfico:

"Uma vez, os confrontos estouraram de repente e precisei ficar hospedado na casa da minha chefe."

Vítima de bala perdida

A afronta à cidadania chegou a um ponto que foi levada ao Tribunal de Justiça. Depois de ter o marido morto por uma bala perdida durante um tiroteio, Suzana, de 25 anos, foi surpreendida ao acionar o seguro de vida que o estofador - com quem havia se casado há apenas dois anos - deixara para ela. A seguradora insinuou que ele poderia fazer parte do bando e depois que assumiu o risco de morrer ao passar pelo local, onde havia ido visitar uma irmã.

"Perdi um ente querido de forma brutal e ainda tenho que brigar na Justiça por um direito que é meu. É muito constrangedor. O sentimento do brasileiro é de impotência."

O advogado dela, Paulo José Silva de Oliveira, teve que tomar uma medida prosaica: anexou pelo menos dez matérias de vítimas de bala perdida no Rio.

O caso será decidido no Superior Tribunal de Justiça porque a seguradora recorreu.

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Fonte O Globonline

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