segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Jazigo


 
 
 
 
 

Jazigo
 

 
 
 
 
 
 
Sou pedaços de mim
nessas lembranças de nós,
sou cacos do que fomos ontem
que vou tentando juntar
como quebra-cabeças em que tento montar
a imagem do que fomos,
e o perfume que exalamos
do o cheiro de nossa pele,
depois do amor.
 
Sou essa perdição no tempo,
esse desperdício de viver a loucura
da busca insana de um tempo
que já se foi e retorna
apenas em minhas lembranças,
como um delírio,
no qual acaricio e busco
no espelho da memória
os momentos em que fomos um.
 
Rasguei todos os versos
com que te vesti,
até aqueles que não escrevi
e, junto, os teus retratos,
as roupas que espalhastes em minha vida,
em minha sala,
e um a um catei todos os fios
de teus cabelos espalhados e meu caminho,

lançando-os ao vento.
 
Queimei os lençóis que usamos,
e tudo que guardava teu cheiro.
 
Apaguei teus rastros
dos caminhos que caminhamos juntos
como quem atira fora flores mortas,
troquei até as chaves das portas
que que te levavam a mim
na crença de que apagaria da pele
a memória da tua pele.
 
Inútil.
 
Basta chegar a noite e abrir a janela.
 
Teu cheiro entra por ela
junto à brisa e o perfume do jasmim,
trazendo tudo de volta.
 
Seria fácil
se apenas morresse o amor,
desde que ele não ficasse enterrado...
em mim.
 
 
(Paulo da Vida Athos)

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