OS INTELECTUAIS E O PODER


OS INTELECTUAIS E O PODER




por Odemar Leotti*


Quando você abrir este link "A revolução não será televisionada" , verá que os sujeitados estão saturados de dar ouvidos às cantilenas da esquerda e da direita, pois já se ferraram a torto e a direita. Tudo o que está acontecendo, iria acontecer de forma inevitável, pois tudo que foi construído como caminho da salvação, não passou de fábulas modernas que estão morrendo dentro de suas próprias limitações. O que parece moderno vem desde a antiguidade. Desde o surgimento dos filósofos na Grécia, é que surgiu essa forma de dizer que tudo que se produz no âmbito do povo é considerado como sem sentido do verdadeiro. Com isso se formaram duas formas de pensar no ocidente atravessadas pelo pensamento platônico, que elege a essência como lugar original da verdade sobre as coisas em detrimento do mundo que ficou considerado como lugar das opiniões que impedem o homem de tocar a grande Razão Verdadeira. O pensamento ocidental moderno, respeitando sua complexidade, se fundou nesse paradigma da morte. Mas os habitantes da caverna, nem por isso perderam suas características se subjetivarem. O mundo depende da linguagem, da qual dependemos para constituir nosso sentido sobre as coisas e daí constituir nossa cultura, ou seja, nosso sentido de pertencimento no mundo. Cada cultura, em cada contingência espacial e temporal, necessitou de construir suas formas de habitar instituindo o espaço geográfico em espaço discursivo. Mas os filósofos, no ocidente, que viviam também na caverna e esqueceram disso, construíram um arquétipo de mundo onde as configurações de sentidos só teriam valor se anulasse o poder do povo de pensar por si. A partir do movimento iluminista, reinicia-se todo esse esquema, agora nos moldes modernos, que irá se concretizar com os revolucionários franceses. Imbuídos desses sentidos ascéticos, depositaram suas construções, entendendo que o poder se instituiria para todos a partir de sua localização no Estado Liberal, forma pela qual se “consolidou”. Entendendo que o poder estaria localizado unicamente no Estado, os intelectuais constituíram um esquema de poder jurídico e começaram a falar em nome dos que não tinham direito à sua expressão, e que ficavam sob sua custódia. Só não explicaram foi que ao se intitularem vanguarda intelectual negaram àqueles não considerados como tal o direito a falar em seu próprio nome. A esquerda não ficou imune a tudo isso. Temos o exemplo da União Soviética, que teve sus soviets, que em língua portuguesa quer dizer comitês populares, que derrubaram os senhores do poder russo, foram gradativamente destituídos de seus coordenadores e colocados em seus lugares a vanguarda intelectual bolchevique, com a argumentação platônica que entende o intelectual, tal qual os filósofos gregos, como aquele que tem a luz e que vê mais à frente que um pobre diabo que não teve os estudos da tais de teorias. O que resultou de tudo isto foi a frustração dos trabalhadores de Petrogrado, que ao sentirem traídos, tentaram remontar os soviets, contra os tidos como comunistas e camaradas. Qual foi o resultado: massacre de mais de dez mil trabalhadores pelos fuzis e canhões do Exército Vermelho. Assim que os trabalhadores tomaram o poder das mãos dos senhores capitalistas as fábricas, ao invés do desejo de Alessandra Kolontai, de que elas fossem para o comando dos soviests, passaram para as mãos do gerenciamento “científico”, inspirado em Frederic Taylor, que instituiu o Taylorismo, base metodológica da segunda fase da Revolução Industrial. É claro que aparecerão várias justificativas contra o que ora falo, mas não poderão desmentir que a economia da União Soviética até a década de 50, tinha 30% de seus rendimentos produzidos pelos presos políticos nos famosos Gulags. E só para matar a curiosidade: de onde surgiram os neo-empresários da atual Rússia capitalista?


Portanto, quando os sujeitados a esse esquema resolverem a pensar por si, todo esse poder frágil que depende da coação para sobreviver irá ruir. Aprendamos um pouco com dois mestres dessa forma de ver, que são Michel Foucault e Gilles Deleuze. Em suas conversações, publicada na obra Ditos &Escritos, Deleuze e Foucault, expressam suas análises sobre a fragilidade do Sistema, a inoperância dos intelectuais e de suas teorias a hipocrisia das chamadas reformas e as ações revolucionárias dos homens ordinários. Por homens ordinários aqui entendamos aqueles que sempre foram considerados como não possuidores de valor teórico e portanto condenados por um saber abusivo a não terem direito à expressão e com isso a não participarem como artífices das tramas de seus destinos, depositando tudo nas mãos dos que se intitulam seus representantes.


Para Foucault e Deleuze, nosso sistema, por ser constituído nessa forma paradigmática, tal qual nossas explicações anteriores, que não exclui o modelo tido como liberal capitalista e hoje neoliberal, instituiu uma forma de poder jurídico, que para poder sobreviver, necessitou de construir uns saberes disciplinadores, que está materializado no modelo educacional e no sistema de controle policial que foi embutido em cada um, mas que aos poucos vai ruindo e se formando de maneira fora do controle. Parafraseando o dramaturgo Antonin Artaud, que viveu seu apogeu intelectual na década de 30, na França, diria que quando as coisas não são significadas com a participação de todos com fins do bem de toda a comunidade e feito pela comunidade, essas coisas voltam contra seus demiurgos com violência sem tamanho. É que a forma descarnada com que se produziu nosso saber, onde se fala tanto em modernidade, cibernética, robotização, falta tanto a vida, tanto a vida para aqueles que não tem acesso às condições básicas de sobrevivência quanto àqueles que mesmo tendo, morrem pela solidão e pela pobreza de sentido de suas vidas, como seres pensantes, ou morrem no sinaleiro, ou seqüestrados ou um monte de coisas mais. Para Deleuze, na verdade, esse sistema em que vivemos não pode suportar nada: daí sua fragilidade radical em cada ponto, ao mesmo tempo que sua força de repressão global.


Quando aqueles que não encontravam espaço para falarem por si começam a construir suas formas a ferro e fogo, podem finalmente falar por si. Aí o sistema rui por si. Foucault denuncia a indignidade do falar em nome dos outros, ou melhor, da inutilidade das representações daqueles que se intitulam como delegado para falar, para mudar leis, para operar reformas. Para ele isso não passa de hipocrisia, pois não ultrapassa os limites dos “arranjos do poder, uma distribuição de poder que se dupliciza por uma repressão aumentada”; quando os desvalidos, tanto pela esquerda, quanto pela direita, que se lambuzam na farra dos aumentos abusivos de salário, resolvem pensar por si, transformam o que era para ser uma reforma reclamada, “exigida por aqueles a quem ela concerne, e ela cessa de ser uma reforma: é uma ação revolucionária que, do fundo de seu parcial, está determinada a pôr em questão a totalidade do poder e sua hierarquia.” [DELEUZE, 40]


Para Deleuze poderíamos chamar essa forma de poder construído para a maioria sem direito a expressão, de um “poder delirante”. Esse tipo nefasto de poder “é o que aparece como em nome das custodiados pelos ditos representantes, mas que nos bastidores pode se ver que está apenas presos nos limites do arranjo de um poder” dos que não se preocupam com a tragédia nacional. Como diria Cazuza, atendidos pelos que os odeiam. Portanto o que seria esse poder delirante? “O que se faz em nome do sistema, impondo àqueles que estão sob sua custódia, operações insidiosas e absurdas ou as manifestações daqueles que já não suportando tanta tripudiações, lançam-se a falar e a gritar denunciando seus sofrimentos?”. Será que os integrantes de uma sociedade escutam tudo sobre o que acontece e que se arquitetam sobre eles? Ou será que se contentam e vêem como totalidade as reduzidas informações que chegam aos seus ouvidos? Aquilo que não serve ao rebanho não pode chegar aos seus ouvidos. Se assim fosse, os fariam ver que as ovelhas não se desgarram por si e sim por não se afinarem com os discursos de lobos metamorfoseados em cães mansos? Mas os saberes não são somente o que vem de fora. Saber se produz, e transforma as coisas a partir de novos significados. Esses por sua vez se produzem a partir da crueza violenta que o texto-mundo se apresenta. Não podemos esperar daí, que a maioria vá mandar rosas para seus agressores, né! O que aconteceria se todos os segmentos considerados sem direito a voz como as crianças, as mulheres, os favelados, os presos, os loucos, os velhos, começassem a falar por si sem serem representados por aqueles que se investem como seus interlocutores, aqueles que se arrogam teoricamente fundamentados por uma teoria que não serve nem mesmo a si e muito menos aos que consideram seus representados?


Rebelar contra um poder pueril e arcaico, conforme o conceitua Foucault. É isso o que foi oferecido àqueles que ficaram sob a custódia dos intelectuais de esquerda e direita. Para Foucault: “O que choca nessa história é não somente a puerilidade do exercício do poder, mas também o cinismo com o qual ele se exerce como poder, sob a forma mais arcaica, a mais pueril, a mais infantil. Reduzir alguém a pão e água, enfim, nos ensinam isso quando se é garoto”. Para esse formidável pensador. “...o poder não se esconde, não se mascara, se mostra como tirania levada aos mais ínfimos detalhes, cinicamente ele próprio; ao mesmo tempo, ele é puro, ele está inteiramente ‘justificado’, já que ele pode se formular inteiramente no interior de uma moral que enquadra seu exercício: sua tirania bruta aparece então como dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem.”. portanto chega do moralismo na análise dos acontecimentos de hoje. Acordemos enquanto é tempo.


*Odemar Leotti, é professor da UFMT, Campus de Rondonólis-MT, tem mestrado em História Social pela Unicamp e escreve nos blogs Deferenti e Poder Repensado .


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Comentários

Anônimo disse…
Paulo, parabens pelo texto e reflexão! Foi um prazer ler sua reflexão... Parabens!

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