A NOVA DITADURA II


Tim Lopes, as favelas e os direitos humanos


Por Paulo Magalhães*

A morte do jornalista Tim Lopes, em exercício profissional, teve grande repercussão na mídia, causando enorme comoção na sociedade brasileira, particularmente na cidade do Rio de Janeiro. Em verdade, virou um ícone e um mártir do jornalismo carioca. Evidentemente pela notoriedade do profissional, a natureza da sua profissão e mesmo pelo corporativismo prevalecente na sociedade brasileira, a repercussão da sua trágica morte simbolizou um atentado à liberdade de imprensa e uma afronta aos direitos humanos.

No entanto, Tim Lopes é um caso de um processo estrutural, regular e contínuo de assassinatos cometidos nas favelas cariocas. Antes da morte de Tim Lopes e após sua morte, a condenação sistemática daqueles que não cumprem as regras ditadas pelo chamado "crime organizado" continua intocada.

A maioria das condenações à morte nas favelas cariocas, com utilização dos métodos de extermínio utilizados no caso Tim Lopes, sequer são registradas nos organismos oficiais e não encontra nenhum amparo das instituições públicas brasileiras e mesmo na mídia.

O caso de uma mulher de 40 anos moradora de uma favela carioca traduz a afronta aos direitos humanos elementares daqueles que não têm a notoriedade de Tim Lopes. Ela vive de biscates desde que seu companheiro a abandonou quando a filha tinha 10 anos. Na maioria dos casos de abandono do companheiro, não há qualquer chance de obrigá-lo a cumprir as funções definidas pelo Direito. Ele simplesmente desaparece e a mulher não tem condições de ter acesso à Justiça. Sendo assim, reproduz-se o circuito da pobreza e da tragédia: a mãe sai para trabalhar e a filha fica sozinha em casa. O seu cotidiano é marcado pela convivência coma vicissitudes da rua. Abandona a escola e passa a conviver com os "meninos do tráfico". Logo namora um deles, corre risco de ser presa, faz pequenos favores para o tráfico. Nesse processo, ganha importância e respeito na favela por estar ligada ao tráfico através do namorado traficante. Tempos depois, seu namorado é executado numa operação policial.

Desprovida da proteção do tráfico, procura resguardo numa outra relação. Começa a "ter um caso" com um soldado do grupamento policial da favela. Logo esta notícia chega à "boca-de-fumo". O veredicto é dado: autoriza-se a sua execução. Numa manhã é ela tirada de casa, seu corpo retalhado e exposto durante todo o dia em via pública da favela para servir como exemplo para aqueles que descumprem as normas do tráfico de drogas. À noite, seu corpo é jogado numa lagoa que serve de "local de desova" do tráfico.

Sua mãe ainda hoje perambula pelas ruas da favela pedindo que as pessoas liguem para o celular da filha para confirmar se ela está morta. Ela acredita que a filha está em cárcere privado, já que quando liga para o celular da filha ouve vozes e reconhece como de sua filha. Mas ela tem dúvidas. Deseja que outros confirmem a sua esperança.

Este caso, assim como o caso Tim Lopes, é apenas mais um das inúmeras situações similares que ocorrem cotidianamente nas favelas do Rio de Janeiro. Existem, ainda, os casos de execuções protagonizadas pela polícia e pelas milícias.

Nunca os direitos humanos foram tão violados, nem mesmo no período ditatorial, ajudado pelo silêncio cúmplice das elites brasileiras que nada vêem, nada escutam, nada falam. Só pedem proteção para os seus pares.


*Paulo Magalhães é sociólogo

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