DIA DO ÍNDIO


Hoje é o Dia do Índio.


Não temos muito a comemorar. Aliás, apenas eles têm alguma coisa a comemorar no Brasil: não terem sido, ainda, extintos. No mais é dor mesmo. Quinhentos anos de ignomínia, humilhação, chacina, isso foi tudo que demos a eles nesse tempo, cara-pálida. E continuamos dando.

O generalíssimo Augusto Heleno, não desmerecendo o nome imperial, afirmou no dia 16 próximo passado que nós “estamos cada vez mais aumentando a extensão das terras indígenas na faixa de fronteira e caminhando numa direção que me preocupa. Pode não ser uma ameaça iminente, mas ela merece ser discutida e aprofundada", e completou:

" -Poderão representar um risco para a soberania nacional".

A preocupação se dá em razão da “segurança nacional” e não em função da segurança de mais uma ou mais nação indígena em risco, que, à luz do direito e da razão, são as legítimas donas da terra que nós, caras-pálidas chacinadores, alcunhamos de Brasil. Brasil para eles é sinônimo de brasil mesmo, brasa acesa em que assamos seus sonhos assim como o fizemos com a maior parte de sua cultura e esperança.

Há um cálculo não confirmado que existem hoje, em terras usurpadas por nós, cerca de seiscentos mil índios. O IBGE afiança que cerca de pouco mais de setecentos mil se declararam índios no último censo. Há também um cálculo estimativo de que cerca de mil nações indígenas, contando entre dois e quatro milhões de indivíduos, viviam nesse paraíso quando os europeus trouxeram para cá Anhangüera, fazendo tudo isso virar um inferno para eles. Não, não é um erro histórico construído pela traição de minha memória. Não falo de Bartolomeu Bueno da Silva, que deles recebeu esse apelido nos idos de 1680. Falo do diabo mesmo, vez que Anhanguera ou Anhangá, era como se chamava o coisa-ruim para os índios. Anhangabaú em São Paulo, o rio, assim foi chamado graças ao nosso relacionamento com eles: anhangá+bá (malefício do diabo)+y (água, rio): "rio do(s malefícios do) diabo". As margens desse rio eram povoadas de gente ruim como o diabo. Essa gente? Nós, cara-pálida. Daí o nome...

Não penso que daremos um aporá para eles. Não. Nunca devolveremos o que tomamos. Mas que deixemos de turbar sua paz, que demarquemos um pouco do que roubamos de seus ancestrais, que não só a reserva Raposa Serra do Sol seja demarcada e realmente preservada para seus legítimos donos dela usufruírem, mas também todas as outras.

Coisa-ruim, assombração, isso é o que sempre fomos e somos na vida do índio. O que demos a eles em toca do que tomamos (suas terras, seus filhos, sua cultura), foi a morte, a intolerância em forma de genocídio.

Ah!, e o Dia do Índio.

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