A GUERRA NOS GUETOS DO RIO DE JANEIRO


Moradores da Penha se refugiam em clima de guerra

Violência limita a liberdade mesmo de quem vive longe da favela.

Procissão de São Jorge reuniu grupos pedindo paz pelo bairro.

As preces para São Jorge, o santo guerreiro, no fim da tarde da quarta-feira (23), foram o alento de paz para os moradores da Penha, no subúrbio do Rio. Pela manhã, em vez de fogos comemorativos, ouviam-se tiros. Mais tarde um caminhão reboque, cercado pelo blindado do Batalhão de Operações Especiais (Bope), apreendeu 10 motos, supostamente usadas por traficantes, na Vila Cruzeiro, onde na última semana os confrontos entre criminosos e policiais deixaram 15 mortos – um deles, nesta tarde – e sete feridos.

Personagem compulsório desse conflito, o comerciante Carlos Alberto Martins, 53 anos, acordou às 6h30, mas só saiu de casa por volta do meio-dia. "Fico esperando a movimentação dos vizinhos, para saber se está tudo bem", disse, abrindo o portão, mas, sem antes olhar para os extremos da rua.

Morando a cerca de 300 metros da favela, nem mesmo numa casa considerada uma das mais seguras do bairro Carlos Alberto se sente totalmente protegido. "Os disparos de fuzil chegam até aqui", garante.

Ele segue pela Avenida Engenheiro Francisco Passos e pára para cumprimentar os amigos num quiosque onde prepara-se um churrasco. O assunto é futebol e... violência.

Entre uma conversa e outra , descontraídos, de repente um silêncio no grupo: o blindado, conhecido como "caveirão" do Bope, cruza a esquina. Segue em direção à favela. Ouvem-se estouros de fogos, no alto do morro.

Não há mais animação para continuar o bate-papo regado com carne e cerveja. Às 13h05, o blindado acompanha o caminhão na favela. Mais tiros. Os veículos militares descem com 10 motos apreendidas que são levadas para o pátio do 16º BPM (Olaria).


Às 16h40, duas ambulâncias do Grupamento de Socorro de Emergência (GSE) do Corpo de Bombeiros saem do quartel da Penha e seguem para o morro. Retornam, minutos depois, sem que ninguém confirme o resgate de feridos.

São 18h, e os fogos iluminam a Igreja da Penha. Na Rua Darcy Bitencourt Costa, ao lado do batalhão de Olaria, aproximadamente 150 devotos de São Jorge iniciam a procissão. No meio da multidão, rezando, concentrados, o comerciante Carlos Alberto, a mulher, e a filha de 12 anos.



Homem morre durante tiroteio

Um homem morreu no Hospital Getúlio Vargas (HGV) na tarde desta quarta-feira (23) e, segundo a sala de polícia da unidade, ele foi atingido na Vila Cruzeiro. De acordo com os policiais, ele seria criminoso e não foi identificado.


A polícia realiza operações nas favelas da região desde o último dia 15. Neste período, 15 pessoas morreram e sete ficaram feridas em tiroteios entre policiais e traficantes.

A contabilidade desde maio do ano passado é ainda mais assustadora. São 232 mortos e 790 feridos desde o início de uma operação na Vila Cruzeiro e no vizinho conjunto de favelas do Alemão, por conta da morte de dois policiais. Os dados são da Secretaria estadual de Saúde, baseados nos atendimentos do HGV a vítimas de arma de fogo.


Fonte: G1

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