SÃO JORGE X MILÍCIA

O Santo Guerreiro contra o dragão da milícia.






Padre que denunciou ação de milicianos cobra ação da polícia e compara malfeitores ao inimigo derrotado por São Jorge.





Rio - A homilia da missa de comemoração ao Dia de São Jorge, na Igreja de Quintino, teve tom de protesto. Durante a explicação do Evangelho, o pároco Marcelino Modelski, 41 anos — que ontem denunciou com exclusividade a O DIA que a milícia cobra taxa das barraquinhas no entorno da paróquia —, comparou os milicianos ao dragão morto pelo Santo Guerreiro e cobrou uma atitude do poder público.



“O dragão tirava o sangue dos outros. É do mal. Quem rouba, mata e atua de forma opressiva é igual a ele. Os milicianos são dragões, fazem mal às pessoas. Temos que nos proteger”, afirmou Modelski, dirigindo-se às autoridades em uma área reservada do altar, entre elas a delegada Marta Rocha, da 12ª DP (Copacabana), o delegado José Otílio, da 28ª DP (Campinho), o comandante do 8º Grupamento de Bombeiros (Campinho), Márcio de Souza Magalhães, e o deputado estadual Paulo Ramos (PDT).


Fiéis lotam igrejas no Rio. Veja fotos




Pela manhã, o padre havia recebido dezenas de ligações de fiéis que comentaram a denúncia feita por ele. “Muitas pessoas me ligaram para falar sobre o assunto. Somente as autoridades e Nossa Senhora não me ligaram”, brincou Modelski. Enquanto as missas aconteciam, do lado de fora da igreja policiais militares e civis faziam a segurança dos fiéis.
O comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), coronel Robson Batalha, circulava pelo local, mas não quis dar entrevista.
“Nossa esperança está nos governantes. Mas infelizmente eles não estão conseguindo nem matar um mosquito (referindo-se ao Aedes aegypti, o transmissor da dengue). Vamos rezar para que cuidem bem do nosso jardim”, disse o pároco, de frente para as autoridades.


SEGURANÇA PARTICULAR
A Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa (Alerj) vai oferecer hoje segurança particular a Modelski. Como O DIA publicou ontem, o pároco confirmou denúncias feitas por barraqueiros instalados na Rua Clarimundo de Melo, no entorno da igreja, de que a tradicional festa do Santo Guerreiro, encerrada ontem, foi toda controlada pela milícia este ano. Com exceção das cinco barracas que funcionaram dentro da área da matriz, a maioria dos 100 donos de pontos de venda de artigos de São Jorge, comidas e bebidas típicas foi obrigada a pagar, diariamente, quantias que variaram de R$ 20 a R$ 50.
“A coragem do padre nos comove, mas estamos preocupados com sua segurança. Entendemos que ele precisa urgentemente de proteção policial, pois está correndo risco de vida. A violência nas comunidades onde esses grupos criminosos (milicianos) atuam no Rio é assustadora”, afirmou o deputado Marcelo Freixo (PSOL), um dos integrantes da comissão. Modelski disse ontem que, a princípio, não deverá aceitar proteção especial. “Não recebi ameaça de morte. Vou me encontrar com os deputados da comissão para agradecer a preocupação com minha integridade física, mas não tenho medo de continuar denunciando esse bando opressor”, afirmou o padre.
Antes da última missa de ontem, às 18h, o padre informou a O DIA a intenção de se encontrar com o chefe dos milicianos. “Mandei o menino lá no bar, mas ele não estava. Vamos conversar”, disse ele, sem dar detalhes. “Não vou adiantar o teor”, completou, taxativo. Segundo o padre, o coronel Robson Batalha prometeu tomar providências. “A Polícia Civil está ciente”, acrescentou o religioso.


Dom Eusébio exige ação da polícia
O assessor de imprensa da Arquidiocese do Rio, Adionel Carlos, informou que o cardeal-arcebispo do Rio, Dom Eusébio Oscar Scheid, procurado pela equipe de reportagem de O DIA, não comentaria o assunto. Mas, “chocado com o escândalo”, o cardeal exige “providências cabíveis e urgentes à polícia”. Também procurado pela reportagem, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, informou, através da assessoria de imprensa, que não daria declarações, afirmando apenas que mais de 150 inquéritos sobre a atuação de milícias no Rio estão em andamento, com “investigações rigorosas”.



O deputado Jorge Babu (PT), autor da lei que estendeu o feriado de São Jorge para todo o estado, disse que vê com preocupação a atuação de milicianos em Quintino. “Esses grupos só atuam onde não há a presença do poder público”, criticou o parlamentar.


Assessores do vereador Sebastião Ferraz (PMDB) explicaram que a ambulância LCU-3569, em frente à matriz, teve o nome do parlamentar coberto por determinação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE).


Multidão espera pela alvorada
Uma multidão lotou ontem a Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, na Praça da República, no Centro, para assistir à tradicional alvorada, às 5h. No início da madrugada a enorme fila para entrar no templo já se aproximava da entrada principal do Campo de Santana, na Av. Presidente Vargas. Devoto e autor de várias canções que exaltam o santo guerreiro, o cantor Jorge Benjor chegou cedo, às 3h30, para fazer um pedido especial: ele orou pela erradicação da dengue e pelo fim da violência no Rio. “Espero que São Jorge levante a sua espada mágica para dar um fim à violência e a essa doença terrível que está assolando o nosso Rio de Janeiro”, pediu o artista, que ajudou a distribuir lembranças.

COBRANÇA ESPANTA BARRAQUEIROS
Barraqueiros que trabalharam vendendo artigos religiosos na festa de São Jorge, em Quintino, contaram a O DIA que o pagamento da taxa exigida pelos milicianos seria feito após a procissão, às 16h. “Eles disseram que passariam aqui no início da noite para pegar o dinheiro. Não tem outro jeito. Infelizmente temos de pagar. Pela manhã, dei R$ 20, valor cobrado pelo tamanho da minha barraca. Mais tarde terei que pagar novamente a taxa”, contou um vendedor, que não quis se identificar.
O número de barracas na Rua Clarimundo de Melo foi menor do que nos últimos anos. Segundo um vendedor, o medo espantou os barraqueiros: “É possível ver um monte de espaço vazio entre uma barraca e outra. Isso nunca aconteceu. Era uma disputa muito grande para se instalar aqui. Este ano muita gente ficou com medo e deixou de trabalhar”.




Com a carteira de trabalho e a foto 3x4 de uma mulher nas mãos, Eraldo Reis, 46, há mais de 30 anos devoto do santo, pedia um emprego e sua ex-mulher de volta. “Vacilei muito com ela. Tinha ciúme demais. Me arrependi e hoje quero viver com ela novamente. Infelizmente cheguei a agredi-la. Era viciado em drogas. Ela é o grande amor da minha vida”, contou Eraldo, sem segurar as lágrimas ao falar da enfermeira Regina Cândido de Carvalho, de quem se separou há cinco anos.
A diarista Graça Maria Pereira da Silva, 48, agradeceu pelo sucesso de cirurgia há quatro anos para retirada de mioma no útero. “Peço força para continuar vivendo”, disse Graça, em frente ao altar.
No Largo do Bodegão, em Santa Cruz, mais de 4 mil cavaleiros participaram da procissão. A festa, que acontece desde 1963, reuniu cerca de 20 mil pessoas.




Élcio Braga, Francisco Édson Alves e Jorge Carrasco. O DIA.


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