UPP Borel: Tijuca começa a dar adeus ao império das armas



Hoje uma farmácia, o cinema América ficava na Tijuca, em frente à Praça Saens Peña. O autor da foto é desconhecido. Mas eram tempos de paz, que os moradores esperam ter de volta.


Policiais do Bope e de Choque ocupam hoje 5 comunidades da região para instalação da UPP. Moradores estão otimistas com pacificação


Rio, 28 de abril de 2010 - Um dia para a Tijuca começar a colocar um ponto final no domínio do tráfico e na criminalidade. A chegada da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) à Zona Norte — como O DIA noticiou em 27 de janeiro — traz esperança para quem mora, trabalha e passa pela região. Hoje, policiais dos batalhões de Operações Especiais (Bope) e de Choque ocupam cinco comunidades com a missão de dar início à transformação já em curso na Zona Sul, Cidade de Deus, em Jacarepaguá, e Favela do Batan, em Realengo — áreas que já contam com o novo modelo de policiamento comunitário.

Foto: Fábio Gonçalves /  Agência O Dia
Morro do Borel será uma das cinco comunidades ocupadas pelas primeiras UPPs da Tijuca, na Zona Norte do Rio | Foto: Fábio Gonçalves / Agência O Dia

O governador Sérgio Cabral anunciou ontem que todas as comunidades da Tijuca receberão UPPs, num grande cinturão de segurança no bairro. Na ação de hoje, é a primeira vez que a polícia ocupa favelas dominadas por facções rivais. O Borel, que vai receber a sede da unidade, também é o primeiro morro com lideranças do tráfico de maior expressão e que, por isso, foram transferidas para presídios em outros estados.

EXPECTATIVA

A polícia não espera resistência e trabalha com a informação de que os traficantes já abandonaram os morros do Borel, da Formiga e da Chácara do Céu, controlados pelo Comando Vermelho, e da Casa Branca e do Cruz, dominados pela facção Amigos dos Amigos (ADA).

A instalação da UPP dá esperança aos moradores de ver um fim para a guerra que trouxe medo e degradação ao bairro. “Cresci aqui. Jogava bola num campinho onde hoje fica o Ciep na Rua São Miguel. Era uma região muito tranquila. De uns anos para cá, os alunos passaram a se abrigar na escola, por causa de confronto. Foram dias e noites de muito tiroteio, medo para os moradores e perdas para os comerciantes e o mercado imobiliário. Prova do sofrimento da Tijuca é a Rua Conde de Bonfim, subindo em direção ao Alto da Boa Vista, completamente deserta à noite”, resumiu o comerciante Norival Tavares, 48 anos.

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Dono de uma lanchonete no bairro, Norival também já precisou obedecer a ordens do tráfico e baixar as portas com medo de represálias. “Teve um momento em que passou a ser constrangedor até receber parente em casa. Recebemos a madrinha do meu filho em casa para um chá, que foi interrompido por rajadas de metralhadora. Ela morava no Flamengo, ficou apavorada e nunca mais voltou para nos visitar”, contou.

A personal trainer Cláudia Ribeiro, 46 anos, torce para que a UPP marque o início de uma nova era no bairro. “Morar na Tijuca era chique. Mas perdemos isso ao longo dos anos. Esperamos que o policiamento comunitário tenha reflexos no morro e no asfalto”, disse.

Cenas de terror que ainda apavoram

Moradora do Morro do Borel, a estudante L., de 21 anos, voltava para casa numa segunda-feira de março, quando viu os corpos de três jovens incendiados em meio a pneus na Rua São Miguel, principal acesso à comunidade. Com a UPP, ela espera nunca mais assistir a uma cena como aquela.

“A polícia veio aqui à noite, mas não pôde fazer nada. A rua foi fechada e fiquei com muito medo porque esta é a vida de quem mora na favela. Tenho medo de como vai ser a chegada dos policiais porque não sei se quem está aqui vai querer enfrentar ou sair, como fizeram os chefes. Acompanho o sucesso nas outras favelas e espero que tudo fique bem aqui também”, afirmou L., acresentando que o principal problema da comunidade é a falta de saneamento.

Outra expectativa é pela valorização dos imóveis nas favelas. Pesquisa do Secovi Rio (Sindicato da Habitação) nas comunidades ocupadas pelas UPPs revela que imóveis registraram valorização de até 148,89%, como em Botafogo, primeiro a receber a intervenção policial.

Cabral promete novas unidades até o fim do ano

Segundo o governador, 30% dos moradores de favelas do Rio poderão ser beneficiados pelas UPPs até o fim do ano. “Todas as comunidades da Tijuca serão pacificadas. Temos disponíveis 700 homens aguardando a pacificação e, até julho, mais uma quantidade expressiva. Entre 12% e 15% da população que mora em favelas já são atendidos pelas UPPs, um número que pode dobrar até o fim do ano”, anunciou Cabral.

Comandante do 6º BPM (Tijuca), o coronel Fernando Príncipe afirma que o tráfico da região está enfraquecido desde o primeiro anúncio de que a UPP chegaria à Tijuca. “Depois das prisões dos líderes do tráfico remanescentes, como Robocop e Bill, há um grupo pequeníssimo e sem estrutura. Tivemos informações de que os criminosos poderiam ter ido para o Morro do Andaraí e também intensificamos as operações lá”, contou.


Fonte O Dia.

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