sábado, 20 de outubro de 2007

NINGUÉM NO BRASIL PRATICA CRIMES SEM DAR DINHEIRO À POLÍCIA


UMA ENTREVISTA COM HÉLIO LUZ



Uma revelação do documentário Falcões: meninos do tráfico, exibido no Fantástico do domingo passado, assombrou os brasileiros: crianças vendem drogas com a conivência das autoridades, inclusive as policiais - a quem pagam salários para o funcionamento dos seus negócios. Nenhuma novidade para o delegado aposentado e ex-chefe de Polícia do Rio de Janeiro (de 1995 a 1997, durante o governo de Marcelo Alencar) Hélio Luz, que diz isso há pelo menos 10 anos.

Radicado em Paris (França) desde 2002, Luz, 60 anos, está em Porto Alegre, sua cidade natal e onde residem familiares. Em um shopping da Capital, Luz conversou ontem com Zero Hora sobre o documentário produzido por MV Bill e Celso Athayde, criticou a inexistência de um "projeto de segurança" no país e voltou a bater no que denomina de "banda podre" da polícia.

- Ninguém no Brasil pratica crimes sem dar dinheiro à polícia. Se o cara chegar e cair na besteira de fazer isso, na segunda ou na terceira vez estará na cadeia. A polícia no Brasil é eficiente. Ela sabe quem praticou crime, onde está e como está. Agora, daí a prender e colocar isso no processo é uma distância grande - disse o delegado aposentado, ao longo de 45 minutos de conversa:

Zero Hora - O senhor não deve ter se surpreendido quando meninos revelaram o envolvimento da polícia com traficantes de drogas.

Hélio Luz - No Rio, o problema não era o Comando Vermelho, mas sim o "comando azul", a PM. O problema é a corrupção na polícia. Existe a impressão no Brasil de que a criminalidade é alta. Não é. A corrupção da polícia que é alta. A criminalidade é decorrente da corrupção da polícia. Quando a polícia deixa de ser corrupta, a criminalidade reduz. Quando meninos dizem que participam do salário da polícia, é verdade. O tráfico, na realidade, é um sócio da polícia brasileira.

ZH - O senhor é autor de uma frase polêmica sobre as delegacias especializadas do Rio de Janeiro: "a Roubos rouba, a Furtos furta e a Homicídios mata". Era isso mesmo?

Luz - (Risos) Eu falei um dia em que estava irritado. Eu dirigia a Divisão Anti-seqüestro, no Rio, e estava aporrinhado porque tinha cinco ou seis seqüestros em andamento e havia polícia na outra ponta (seqüestrando). Então, era eu enfrentando policial. Eu falei: "Bom, a partir de hoje a Divisão Anti-seqüestro não seqüestra mais".

ZH - Ela seqüestrava?

Luz - Seqüestrava! Esse é que era o problema. Então, você não conseguia acabar com o seqüestro no Rio porque a Divisão Anti-seqüestro seqüestrava! Ela terceirizava. O traficante ia lá seqüestrava e ela operava o prêmio (resgate). Ela (a polícia) ia para dentro da casa do seqüestrado e depois operava lá na ponta para pegar o dinheiro do resgate.

ZH - Os policiais da Delegacia de Roubos roubavam também?

Luz - Não vou generalizar. Falo sobre o Rio. Não é que a (divisão especializada de) Roubos e Furtos pratique roubo e furto, mas eles vão ser sócios dos ladrões. Falo na prática. Na hora em que enquadrei a Divisão Anti-seqüestro acabou o problema de seqüestro no Rio.

ZH - A analogia serve para roubo e furto de veículos?

Luz - Teve uma época em que aumentaram o roubo e o furto de automóveis no Rio. Então, eu desmanchei a especializada de roubo e furto de automóveis, transformei em uma repartição burocrática. Reduziu o índice (de roubo e furto de veículos). O índice de 1996 foi o menor dos últimos tempos no Rio. Eram eles que roubavam os carros? Não. Mas eles organizavam o roubo de carros do Rio.

ZH - Talvez o senhor tenha sido o primeiro chefe de Polícia que disse para todo país ouvir: "Há uma banda podre na polícia". Isso foi em 1996. De lá para cá, mudou alguma coisa?

Luz - Não vejo mudança. Em uma instituição pública, o controle externo vai lá e retira o corrupto. A instituição continua funcionando normalmente. Na polícia, não. A corrupção é um instrumento utilizado pela polícia. O Estado sabe disso e tolera.

ZH - Essa análise vale para o Rio ou para o Brasil em geral?

Luz - É geral. Talvez a do Rio seja mais corrupta porque é uma das mais velhas do país.

ZH - Como o senhor analisa a intervenção do Exército no Rio?

Luz - Por que o Exército, ao invés de subir as favelas do Rio, não controla a fronteira seca com o Paraguai e a Bolívia? Se fizer isso, o tráfico de drogas e de armas vai cair. Se a Polícia Federal fechar a ponte de Foz do Iguaçu, o roubo de automóvel e o tráfico de armas reduzem. Todo mundo sabe disso. É público e notório. Mas por que não fazem?

ZH - Como o senhor avalia o projeto de segurança do governo Federal?

Luz - Não me parece que haja um projeto. Não parece que esteja entre as prioridades do governo.

ZH - Como está a experiência na França? Há algo que possa ser utilizado no Brasil?

Luz - Não é a oitava maravilha do mundo. Agora, por exemplo, lá houve protestos, manifestantes tocaram fogo em 10 mil veículos, mas a polícia não matou ninguém. É um Estado voltado para sociedade. Ao contrário da nossa polícia, que faz controle social, a polícia francesa dá segurança ao cidadão.

ZH - Na França é tolerado que um policial tenha uma empresa recuperadora de veículos, por exemplo?

Luz - (Risos) Não existe isso.

ZH - As pessoas de um modo geral acham que mais policiais nas ruas significa mais segurança. O senhor concorda?

Luz - É loucura! Os governantes não controlam 10 mil policiais. Aí, eles contratam mais 10 mil. Bom, quem já não controlava 10 mil agora vai ter de administrar 20 mil policiais. O grande problema nesse país é que não há um projeto de segurança. Se deve reduzir o número de policiais, pagar melhor, qualificar. É impossível ter o controle de 80 mil homens da PM ou de 20 mil da Polícia Civil.

ZH - Além de chefe de Polícia, o senhor foi deputado estadual pelo PT. Pensa em voltar à vida pública.

Luz - (Risos) Não. A saúde não permite mais.


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