A PROIBIÇÃO QUE FINANCIA OS FUZIS



















SENHORES DAR ARMAS E DO PÓ




Arsenal que consta em anotações da Favela da Coréia inclui 41 mil balas compradas em 4 meses


Christina Nascimento e Leslie Leitão



Rio - O poder de fogo dos traficantes da Favela da Coréia, em Senador Camará, que travaram um confronto sangrento na quarta-feira, está traduzido na contabilidade apreendida pela polícia. Anotações mostram que somente de janeiro a abril a quadrilha de Robson André da Silva, o Robinho Pinga, que mesmo preso em Catanduvas (PR) controla o tráfico na região, comprou 55 armas, 38 granadas e impressionantes 41 mil balas de diversos calibres. Ontem de manhã, cinco corpos foram deixados próximo ao Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, o que pode elevar para 17 o número de mortos no confronto na Coréia — entre eles um menino de 4 anos e um policial civil.

Parte da documentação apreendida aponta movimentação de R$ 720 mil. Dessa quantia, R$ 242 mil são oriundos do lucro com a venda de sacolés de cocaína. As anotações são uma mostra de que o comércio clandestino de armamentos fatura alto com a criminalidade carioca. Para comprar 200 caixas de balas de fuzil AK-47, 200 de pistola 9 mm, 200 de 45, 100 caixas de PT 380 e 50 de revólver 38, o tráfico desembolsou R$ 177,5 mil.

O que a polícia já sabe é que o principal responsável por fazer todo esse arsenal chegar às mãos da quadrilha de Senador Camará chama-se Valdenício Antunes Barbosa. Mais conhecido como Val, ou “Senhor das Armas”, ele foi identificado e teve a prisão decretada pela Justiça com base na investigação da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae).


FORNECEDOR ANTIGO

A relação de Val — que, segundo investigações, vive na fronteira do Brasil com o Paraguai — com Robinho é antiga. Em 2001, quando Pinga ainda integrava o bando de Paulo César Silva dos Santos, o Linho, dado como morto, Val chegou a faturar cerca de R$ 1,4 milhão com a venda de fuzis, granadas e pistolas.

Os valores de 2007 também impressionam. Em 24 de março, a ‘caixinha’ registrava saldo de R$ 478 mil. Desse valor, R$ 50 mil foram usados na compra de dois fuzis: um Parafal e um Sig Sauer. Outros R$ 40 mil foram gastos em 3 de abril, para fazer o pagamento de um fornecedor identificado como “Coroa das Granadas”.

A anotação também mostra que R$ 130 mil foram pagos ao “Matuto (fornecedor) do Cunhado” no dia seguinte. Depois, dia 18, mais R$ 25 mil foram gastos com outros dois fuzis calibre 7.62.

Nos primeiros quatro meses do ano, a quadrilha de Pinga — que é controlada por Luiz Cláudio Cândido, o Claudinho Nonô — adquiriu quatro fuzis, duas pistolas e um total de 41.339 balas: 4.100 de fuzil AK-47; 2.949 de 7.62; 280 de 5.56; 13.073 de pistola 45; 11.339 de 9 mm; 1.308 de PT 380; 5.850 de calibre 40; e 2.500 de revólver 38.


ARMAS INÚTEIS

Nessa última operação, foram apreendidas uma metralhadora antiaérea ponto 30, cinco fuzis, seis pistolas e quatro granadas. Material avaliado em R$ 200 mil. Um fuzil FAL calibre 7.62, com brasão do Exército, foi encontrado. A polícia tenta agora descobrir quem é o militar, identificado como “Selva”, que aparece nos papéis recebendo R$ 3 mil pela venda de balas de 7.62 e 9 mm, em 10 de fevereiro.

Apesar de as armas terem sido retiradas das mãos dos bandidos, elas vão para o depósito e ficam inutilizadas. Ontem, o governador Sérgio Cabral criticou o procedimento: “Elas deveriam ser reaproveitadas pela polícia”.


FOGOS DE ARTIFÍCIO NO ENTERRO DE TRAFICANTES

Sete dos 10 bandidos encontrados mortos na quarta-feira foram enterrados ontem. Cinco sepultamentos ocorreram no Cemitério de Campo Grande. Ônibus e vans levaram cerca de 50 moradores da favela à cerimônia, que teve fogos em homenagem aos mortos e policiamento reforçado para evitar protestos.

Velados juntos, os corpos de Marcus Vinícius Ramos Pinto, 17 anos, Luís Cláudio da Silva Ferreira, 33, Tiago do Nascimento Ignácio, 22, Leonardo Caetano de Souza, 20, e Leandro Gomes Matos, 17, foram enterrados em covas rasas.

Também de manhã, Leandro Vinícius dos Santos, 21 anos, foi enterrado no Cemitério Jardim da Saudade de Sulacap, e Paulo Cezar Correa Linhares, 22, no Jardim da Saudade de Paciência. Os outros três bandidos continuavam sem identificação no Instituto Médico-Legal até a noite de ontem. Dos mortos já identificados, dois tinham passagem pela polícia: Leandro já foi preso armado e com um carro roubado; Paulo Cezar foi detido por tráfico.

O governador Sérgio Cabral disse que as operações vão continuar: “Se eu pudesse pedir para os marginais devolver as armas, faria. Mas infelizmente não é assim. Esses traficantes da Favela da Coréia estavam na Avenida Santa Cruz, em frente à favela, fazendo blitz, a qualquer hora do dia ou da noite, para tocar o terrorismo dentro da comunidade e fora. São verdadeiros criminosos selvagens”.

O deputado estadual Alessandro Molon, da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, pediu ontem ao Ministério Público que acompanhe as investigações sobre a operação.


A VIDA POR UM CORDÃO

Desde quarta-feira, o delegado Rodrigo Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), tem no corpo não só fragmentos da bala de fuzil que o atingiu no pescoço na operação da Coréia. Um pedaço do cordão de ouro que usava naquele dia está alojado bem próximo da coluna, pouco abaixo do ferimento. O policial, que se recupera em casa, será submetido a uma cirurgia para a retirada dos objetos daqui a dois meses.

O delegado lembra com clareza o que aconteceu depois de ser baleado. Rodrigo conta que teve de subir um trecho do morro de cerca de 200 metros até chegar ao helicóptero que o socorreu: “Fiquei preocupado porque não sabia até onde conseguiria ir ferido daquele jeito. Mas graças a Deus consegui escapar da morte”.

O policial estava em um blindado e foi dar apoio a outras equipes que trocavam tiros perto da casa do menino Jorge Kauã. Quando o garoto chegou ferido, trazido por um agente, o delegado saiu do veículo e seguiu a pé para ajudar os outros policiais. “Eram muitos tiros.

Os marginais atiravam na direção da equipe que estava na frente da casa. Tentei fazer um cerco nos fundos, mas fui baleado e caí. Não me recordo exatamente da hora em que isso aconteceu, mas lembro que, quando cheguei ao hospital, meu relógio marcava 12h30. Estranhamente ele parou de funcionar depois disso”, relatou Oliveira.

À frente da força de elite da Polícia Civil, ele já participou de vários confrontos e nunca havia sido atingido. “Acredito numa força maior, num Deus que nos protege sempre. Mesmo ferido, escapei da morte. Agora tenho duas datas de nascimento.”

O ministro da Defesa, Nélson Jobim, elogiou a operação da polícia na Favela da Coréia. “Há uma necessidade de ir para o confronto. O resultado de outras políticas foi um zero à esquerda”, afirmou. (Maria Inez Magalhães)

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