quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

ODEMAR LEOTTI NO O REBATE


O QUADRO ESTÁ SE ROMPENDO?


ODEMAR LEOTTI*


Mãos espalmadas. Dedos maltratados como o de uma toupeira que acaba de emergir de um buraco das profundezas. Aqueles cinco dedos faziam parte de um cenário infinito que começa pelas unhas arrebentadas pela força de forçar a parede. Parece querer dar-se ao mundo que sufocou o seu corpo em seu desejo de ser em seu pulsar intenso. A parede que nos separa da vida, que encobre nossa porosidade e impede nossos impulsos de manifestarem-se. A parede vai sendo pouco a pouco rompida com aquelas mãos frágeis, mas que se tornava poderosa na ânsia de vazar essa separação que parecia irreparável. Olhando um pouco abaixo podemos ver a outra mão. Quase a outra mão. Três dedos como três irmãos de uma mão irmã da outra mão. Mal sentimos esse detalhe do corpo. Duas mãos: uma busca a saída enquanto a outra se apóia para segurar o corpo da força esmagadora da gravidade terrena. Parece que o peso da gravidade que prende o corpo ao chão se equivale ao peso da moral que o deserta da frêmita vida terrena e afasta o ser do emaranhado do mundo. Aqueles dedos parecem dar expansão à angústia do olhar na busca de romper a parede que separa o desejo da vontade de potência do corpo em seu pulsar dos desejos incontidos. À frente três dedos se agarram à parede nessa luta ininterrupta da vida, ou melhor, da sua falta, da sua intoxicação pelo discurso implacável de uma verdade sufocadora dos sentimentos impulsores. A parede parecendo os ensinamentos de tantos anos que tornam o corpo como uma cela dos desejos incontidos. Grades e mais grades, cimento e mais cimento, paredes e mais paredes dilaceram, sufocam, enterram em vida o ser do impulso, injeta nos sentimentos uma vontade que parede própria de não se realizar com a vida em seus instantes eternos comandado pelo perigo da vida como jogo. A história dos corpos parecendo ser como o ser de um presente fruto de um passado construído por uma história que vê a vida como uma falta e o tempo como um corrigir-se constante. Parece a história de um presente oferecido em holocausto ao futuro prescrito. Esse quadro moderno que rompe com o ser como fruto do emaranhado do mundo. Esse quadro moderno que faz com que as palavras desertem do mundo. Esse quadro que quer um ser fora do mundo. Um ser preso a uma verdade purificadora. O ser do mundo parece irromper querendo vazar essa parede. Essa parede constituída pelo discurso que fez do corpo seu próprio arquiteto, engenheiro e pedreiro. Passamos a vida a carregar a argamassa para construir nosso próprio calabouço. Esse quadro-prisão está sendo rompido? Olhando um pouco no sentido contrário do artista, vamos do mais próximo ao mais além. A parede inóspita e fria traz em suas marcas sinais dos tempos. Para que ela fora criada? Pastilhas que se queriam belas posam agora como jazigos de gentes. Marcas do tempo esculpiram nela marcas de atitudes: alegrias, tristezas, românticas dos namorados que insistem em dar eternidade ao eterno e no momento eterno marcam arvores, paredes, muros, areias da beira do mar. Marcam o momento da eternidade como que em desespero ou pleno prazer, que seja lá o que for. Marcam aquele momento como que implorando para que nunca mais se acabasse e como que não querendo voltar a um vazio árido da vida. Aquela parede agora marcava outra cena. Aparecia nela uma inversão do artista. Parece que havia algo a inverter-se. Parece que nascia ali um quadro em seu avesso. A obra sufocada invadindo o quadro e querendo sair dele. Seu gesto nos oferece em cena um corpo que se quer sair do espetáculo do corpo prometido. Parece não mais querer ser como o animal da promessa, da dívida eterna. Parece que se quer saindo de uma luz que escurece para buscar a luz do cotidiano: ali onde a vida, que se faz desregrada sob o peso do regime enquadrador. Como que no desespero tenta se livrar de outro quadro que o enquadra como corpo enjaulado na essência segregadora que separa a vida de sua rebeldia. Reparem a moldura. Esculpida com aquelas mãos frágeis e que se cria em força no desespero de sair das entranhas do quadro. Uma mão que parece abrir brechas para tentar gritar a alguém que o tirasse dali. Parece que se prende o corpo para conter seus desejos desenquadrados. Os quadros são pintados pelo artista que por sua vez é pintado pelo próprio artista. Seria como que o corpo representado passa a representar a si representando os outros. Um ser do conhecimento fora da vida que quer dar lugar ao invisível. O invisível, esse lugar onde a vida se embeleza. Esse lugar da liberdade da vida que não podemos nomear conceituar, colocar verdades definitivas. Parece que é aí que se quis implantar uma verdade. Uma verdade para o ser definitivo. Uma verdade como um dique para conter as formas múltiplas do desejo. Fica fora do quadro os corpos rebeldes que não se reduzem aos limites do atelier. Eis nosso quadro do avesso. Uma moldura irregular. Uma moldura esculpida pelo corpo jogado para dentro de calabouço para ficar fora do quadro. A inquietude que desmancha a harmonia fez com que saísse do enquadramento. Logo atrás vem a escuridão celular. Essa escuridão que o corpo quer sair. Parece isso. Ou seria esse espaço a própria pintura do quadro? Seria aí o calabouço dos infiéis ou o espaço reinventado para os corpos? Seria então a rebelião das subjetividades subordinadas? Onde estão esses corpos rebeldes? Não estariam dentro de nossos próprios corpos? Essa liberdade que nos ofereceram não seria a prisão de nossos desejos? Não seria uma prisão construída com a parede de uma liberdade prometida. Ou um corpo prometido que já nasce em dívida? Não seria a vida essa cela que queremos sair. Ali fora dela seria o cotidiano onde reina a frêmita vida? Quem está ali preso? Que corpo seria aquele? O seu? O meu? De quem seria esse corpo? O escuro seria a condenação dos que não aceitam o sol enquadrado pelo artista luminar? Parece isso. O que fazia a discórdia daquele espaço e o que contém de sombrio são os olhos brilhantes que fustigam o pequeno espaço esculpido pelas mãos arranhadas e sujas. Eis aí mais uma parte de um corpo que parecia uma única coisa. Dez unhas de dez dedos que fazem parte de duas mãos e de um corpo que se quer sentir e que é arremessado ao calabouço dos infiéis. Mas esse corpo quer voltar sempre. E quem está com a chave que prende o corpo a não ser nós mesmos? Sim! Eis o pior de tudo. Abrimos fendas em nós mesmos. E fechamos as fendas rapidamente. Fortaleza que mais parece prisão de nós mesmos. Os olhos como que pedindo a alguém que tirassem aquele corpo daquela solidão perversa. Aquele olhar parecia o último espaço onde ainda habitaria uma ínfima vontade do desejo. Mas não nos atemos unicamente ao olhar. As mãos, como guerreiras que fazem a frente da batalha tentam romper a escuridão e encontrar a luz de fora. Seria o romper do quadro de Velásquez? O pintar o quadro do contrário? Ou a ruína das tintas que deu volume à vida como representação? Emergir do fundo de um tempo clássico que pintou uma vida representativa? Destituir-se da carapaça de sua verdade luminosa que o século dezessete nos herdou? Descascar a máscara que o dezenove a fez mármore. Romper com uma positividade que quer corrigir o mundo, silenciar o que entenderam como corpo impuro fruto dos desvios. Ver emergir no século vinte a inquietude de um tempo enganoso que nos rouba a vida. Seria isso o que representaria aquele olhar? Colocar do avesso o quadro pintado na época clássica, repintado a partir do seu próprio desdobramento, onde os protagonistas tomam em vida e se fazem e fazem os outros. Fabricam invenções a partir de um lugar distanciado da vida frêmita do formigamento do instante eterno e profano. Eis aí o que esse olhar parece nos querer mostrar em sua angústia de um corpo preso às paredes do tempo: um tempo que busca uma origem verdadeira e essencial e que dedica ao corpo um ódio eterno que mata a sua eternidade do instante e o prende nas paredes da moral civilizadora e monocórdia. Parece que as paredes vão sendo rompidas. Parece que o quadro de Velásquez volta da emergência de seus protagonistas invisíveis. Parece que eles despontam de um lugar da luz dilaceradora do luminar da eternidade do instante ininterrupto. Parece que buscam a luz de fora. Ou a luz de dentro sufocada por uma pseudo-luz? O que podemos pensar dessa cena? O quadro rompido? O quadro se rompendo em suas entranhas onde habitamos? Somos essa parte do cenário escondido que vão sendo devassadas pelas mãos frágeis que tentam fazer emergir o forte impulso do desejo? Somos seres que não se enquadram? Agora é Foucault quem fala: “O homem se despedaça à frente de Deus”. Deus não está no singular. O geral nunca vai engolir o ínfimo e infinito espaço do desejo. O desejo é o lugar incontido. O desejo tem em suas entranhas incorrigíveis o efeito rizomático como nos falou Deleuze. O ser não se enquadra no definitivo. O ser é in - determinado. O ser é in-definitivo. O ser é in-devassável. O ser é in-do, é sendo no mundo a todo instante. O ser da vida não se enquadrou na linguagem que ofereceram a ele como última morada. Não se enquadrou na vida classificada, generalizada. Não se enquadrou no trabalho, na produção. O que é esse ser do corpo. Esse lugar intocável que não aceita a morada que lhe é oferecida? O sentir: esse lugar que não se acha e que nos acha...Nos fustiga, nos põe a romper paredes onde somos presos e carcereiros: esse lugar paradoxal em que somos corpo e alma ao mesmo tempo. A vida seria esse misturar de alma e corpo? Não há essa separação? O que é essa vontade de verdade que se opõe ao formigar do mundo em sua eroticidade? Ela está se arruinando? Enfim: o quadro está se rompendo? Foto:www.pensamente.wordpress.com/2006/05/06/desespero

Fonte: Jornal o Rebate

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