Botafogo Bicampeão da Taça Guanabara em 2010. Crônica: "O passo do Botafogo"


O passo do Botafogo


Por Fernando Calazans


Festa mais do que bonita do Botafogo, no Maracanã, com a vitória de 2 a 0 sobre o Vasco e a conquista, pela segunda vez seguida, da Taça GB. Vitória mais do que bonita porque mais do que merecida. Apesar do (aparente) domínio do Vasco e de sua vantagem na posse de bola. Foram apenas aparências. Assim como na vitória sobre o Flamengo, o Botafogo foi mais efetivo e mais perigoso.

Em todo o jogo, as oportunidades de gol criadas pelo Botafogo, ainda que poucas, foram muito mais nítidas e mais bem finalizadas do que as do Vasco.

Foram bonitas a vitória e a conquista do Botafogo, nas palavras finais do técnico Joel Santana e de Leandro Guerreiro. Joel dedicou seu trabalho e seu êxito ao grande Nílton Santos, ícone e ídolo do Botafogo, que o recebeu de braços abertos.

Leandro Guerreiro resumiu a campanha do Botafogo em três palavras: humildade, dedicação e respeito.

Parece clichê, parece lugarcomum, mas só parece.

Respeito (pelos adversários), dedicação (ao próprio clube) e humildade (em si mesmo) são coisas cada vez mais raras no futebol dos gladiadores e dos comandantes.

E foram elas, as palavrinhas de Leandro, que caracterizaram o Botafogo depois da chegada de Joel Santana.

Lembrar, hoje, as limitações técnicas e qualitativas deste elenco é pobreza de espírito. Não é novidade para ninguém.

O importante é o Botafogo mostrar e comprovar que, com a experiência e a orientação de Joel Santana, pode dar os passos para a sua real recuperação — como time e como clube. Já deu o primeiro.

E que os torcedores do Botafogo — que são aqueles que menos acreditam no Botafogo — troquem essa mentalidade (a mentalidade do chororô) por uma ideia de grandeza que o clube merece por seu passado e por sua história.

O primeiro tempo, com grande movimentação e alta velocidade, foi uma chatice só, mostrando que futebol só com velocidade e movimentação, não tem graça alguma. Pouquíssima criatividade, pouquíssimas jogadas de área. Domínio das ações pelo Vasco, e, no entanto, oportunidades maiores para o Botafogo.

Panorama que se acentuou no segundo tempo, agora com mais poder ofensivo, e que confirmou a capacidade de decisão do Botafogo, já demonstrada na vitória sobre o Flamengo.

Aos 25 minutos, o bom goleiro vascaíno Fernando Prass, que já tinha salvado o gol num chute à queimaroupa de Herrera, ficou indeciso na saída do gol, e o zagueiro Fábio Ferreira marcou de cabeça o primeiro do Botafogo.

Foi o bastante para alguns jogadores do Vasco — em jogo tão decente e de poucas faltas como era até ali — mostrarem a sua face de brucutus. A começar pelo desqualificado Nílton e sua entrada criminosa em Caio. Foi muito bem expulso, assim como Titi pouco depois, ao cometer pênalti em Loco Abreu. Este mesmo bateu e fez 2 a 0. Fernando, que já cometera um pênalti não marcado em Abreu no primeiro tempo, foi outro que abusou da violência, mostrando que não sabe perder (e provavelmente não sabe ganhar).

Com dois gols e dois homens a mais, o Botafogo passou os últimos minutos cantando a vitória. Em menos de uma semana, quartafeira e domingo, ganhou do Flamengo e do Vasco.

Discutir o quê?

Por causa de uma estreia na próxima quarta-feira, na Copa Libertadores da América, imaginem só, o Corinthians não pôde escalar seu time principal no jogo de sábado com o Rio Branco pelo Campeonato Paulista.

Ou seja: quatro dias antes.

Resultado, o empatezinho de 0 a 0.

É isso, hoje em dia, que se chama de profissionalismo no futebol. E é exatamente em nome dele — profissionalismo — que essas atitudes são tomadas. Faz parte da “estratégia”.

Faz parte do “planejamento”.

Faz parte da “prioridade”. Tudo isso é retrato do tecnicismo exacerbado que contaminou o outrora franco, natural e espontâneo futebol brasileiro. Taí a palavrinha que considero mais adequada: tecnicismo no lugar de profissionalismo.

Quer dizer: o jogador de futebol — futebol profissional, registre-se — não pode entrar em campo para jogar futebol num dia e entrar em campo para jogar futebol quatro dias depois. Logo na era da preparação física.

O Corinthians, no caso, é apenas o exemplo de um fim de semana. Aconteceu com ele, clube paulista, acontece, quase o ano inteiro, com clube mineiro, carioca, gaúcho ou baiano.


Fonte: Jornal O Globo, p. 2, de 22 de fevereiro de 2010.

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