O Rio que não queremos: PMs presos por tortura, roubo e morte


PMs presos por tortura, roubo e morte


Dois soldados e dois cabos são acusados de sequestrar dois rapazes na Penha e matar um deles, que era caixa de farmácia

Rio, 20 de fevereiro de 2010 - Indiciados por tortura, roubo e morte do caixa de farmácia Marcílio de Souza Silva, quatro policiais tiveram as prisões temporárias decretadas ontem. Os cabos André da Silva Sá e Rogério Conde de Oliveira e os soldados Eduardo José da Silva Valentim e Francisco Emanuel Borges dos Santos — todos do 16º BPM (Olaria) — depuseram na 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) e na Divisão de Homicídios (DH). Eles negaram os crimes.

Foto: Uanderson Fernandes / Agência O Dia
Três dos policiais acusados chegam para prestar depoimento na Divisão de Homicídios da Polícia Civil | Foto: Uanderson Fernandes / Agência O Dia

As prisões foram decretadas pela juíza do plantão judiciário, Gisele Guida de Faria. Marcílio e o primo, que sobreviveu, haviam saído de moto da Vila Cruzeiro, na Penha, quando foram abordados pelos PMs, quarta-feira à noite. Eles teriam sido levados a Parada de Lucas, onde o primo afirma ter sido extorquido, roubado e alvo de tiros. Ele escapou ao pular muro da linha férrea.

Os acusados teriam contado informalmente que abordaram os jovens em Lucas. Como os rapazes eram moradores da Cidade de Deus, onde atua facção rival, os PMs chamaram um colega do 15º BPM (Caxias) que já trabalhou em Jacarepaguá. O policial disse não conhecer os rapazes. Os cabos e soldados presos afirmaram que teriam liberado a dupla e que só souberam da morte de Marcílio no dia seguinte.

Mas o GPS de uma das duas patrulhas verificadas mostrou que, às 21h, o veículo passou pelo local onde o corpo de Marcílio foi encontrado, na Rua Guarupá, na Penha. A vítima estava amarrada com corda sintética, em posição fetal e com dois tiros na cabeça. Dois projéteis foram arrecadados no corpo.

Um dos policiais foi preso em casa e os outros se apresentaram ao comando da corporação. Eles chegaram à DH por volta das 19h. Eles foram reconhecidos pela testemunha por fotos. “A vítima não teve dúvidas”, disse o delegado Felipe Ettore, ressaltando que os jovens teriam ficado cerca de uma hora em poder dos PMs, levando chutes e tapas nos rostos

“Estamos verificando a questão militar e o crime contra a vida será apurado pela Polícia Civil. As armas (duas pistolas calibre 40 da PM e duas pistolas particulares) já foram apreendidas para exame. Se comprovado o envolvimento, nos causa grande indignação. Irão a conselho disciplinar e até exclusão”, disse o corregedor da PM, coronel Ronaldo Menezes. “Caso seja provado, é uma atitude que causa indignação e revolta dentro da corporação. A PM não pode compactuar com erros”, afirmou o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte.

Jovem que conseguiu escapar relata agressões

O primo de Marcílio contou à polícia que os PMs teriam agido com brutalidade. “Deram tapas no rosto, revistaram e tiraram nosso dinheiro, celulares e documentos. Na divisa de Vigário Geral com Caxias, os PMs encontraram uma patrulha do 15º BPM e perguntaram se eles sabiam se havia alguma coisa contra nós. Mas os outros policiais responderam que não”, disse o sobrevivente.

Há informações de que a dupla teria ido à Vila Cruzeiro para se desculpar com traficantes da Cidade de Deus refugiados. O motivo seria a briga entre a mulher de um dos rapazes com a namorada de um bandido, que teria ficado machucada.

O enterro de Marcílio será hoje no Cemitério da Pechincha, em Jacarepaguá. Ele tinha uma passagem na polícia por lesão corporal. Dos quatro PMs, apenas um prestou depoimento na DH. Os outros disseram que só falarão em juízo. Eles ficarão presos no Batalhão Especial Prisional (BEP).

Reportagem de Bartolomeu Brito, Maria Inês Magalhães e Vania Cunha

Fonte O Dia Online

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