MILÍCIA INSTITUI A PENA DE MORTE NO BRASIL


Milícia institui a pena de morte



Ex-fuzileiro naval atua como líder de grupo paramilitar impondo justiça pelas próprias mãos e decretando sentenças



Rio - Na sexta-feira, enquanto agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) ocupavam a Favela Palmeirinha, em Guadalupe, para prender 14 envolvidos com a milícia - entre eles três policiais militares - e impedir ação do grupo na Favela Pinheiral, o soldado do Batalhão Ferroviário e chefe do bando, o ex-fuzileiro naval Fabrício Fernandes Mirra, conhecido como Mirra ou MR, decretava a sentença de morte de José Alexandre Silva Eugênio, em Volta Redonda.



Espancado por milicianos, ele morreu domingo, após permanecer dois dias hospitalizado.


Ainda no domingo, traficantes invadiram a Palmeirinha e mataram duas pessoas, entre elas o irmão do soldado da PM Marcos Gregório Siqueira Silva, o Zero, preso sexta-feira.



Os integrantes da milícia são apontados como responsáveis por uma série de crimes. Zero e Felipe Evangelista Adão, o Angolinha, são acusados ainda de dois homicídios em Belford Roxo, em novembro do ano passado. Outro integrante do grupo, Eliseu Adão, o Angola, é responsabilizado pelo seqüestro e morte de Jefferson Luiz Moreira, em janeiro do ano passado, e pelo assassinato de Alberto de Jesus Tavares, em 2005.



Segundo investigações da Draco, o grupo conduzia com mãos de ferro, além da Palmeirinha, as favelas de Fernão Cardim, Águia de Ouro, do Guarda e Belém-Belém, em Del Castilho. Para isso, cobraram de R$ 10 a R$ 50 de moradores, comerciantes e topiqueiros. Taxavam ainda gás, TV a cabo clandestina e a compra de imóveis.



GRAVAÇÃO



No bando, Mirra tinha como segurança e braço-direito o ex-pára-quedista Alex Domingos da Silva, o Sacura, e como sócios o PM Alexander Dantas Mello Alves, o Pêra, do 2º BPM (Botafogo), e Fábio Gomes Coutinho, o FB. O mais violento do grupo seria Luciano Galdino Carneiro, o Luck. Em gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, em novembro, Luck se vangloria: “Opero as pessoas sem anestesia”.



O grupo tem a participação do ex-soldado da PM Adilson de Andrade Pessanha, o Russo, e faz empréstimo de armas com o agente penitenciário identificado como Nelson Siqueira Gonçalves, o Nelsinho. Sexta-feira, foram presos ainda o presidente da Associação de Moradores da Palmeirinha, Damião Juvino da Silva, e seu irmão, Erivaldo Juvino, o Nem.



Segundo a polícia, Robson da Silva, o Geléia, e Andre Marcos de Souza fazem parte da milícia. O bando estaria ligado ainda a grupo de extermínio que age em Jacarepaguá. A polícia pediu a quebra dos sigilo bancário dos envolvidos. Sete estão presos. Um PM do Batalhão de Choque também é investigado por manter TV a cabo clandestina em Realengo e em Santa Cruz.



Principal suspeito não foi depor



Antigo reduto da facção Comando Vermelho (CV), a Palmeirinha foi tomada do tráfico pela milícia em 2006. A tentativa de retomada pelos traficantes teve participação de bandidos do Morro da Providência, no Centro, hoje ocupado pelo Exército. Os criminosos teriam aproveitado que a milícia estava enfraquecida pela prisão, na sexta-feira, de alguns dos seus integrantes, entre eles o PM e o presidente da associação de moradores da comunidade, Damião Juvino da Silva.



Apesar da violência da ação, a PM não ocupou a favela, que estaria, atualmente, sem o domínio de nenhum grupo armado. O comando do 9º BPM informou que apenas reforçou o policiamento, com a presença de quatro viaturas ocupadas por 14 policiais.



A existência de milícia na Palmeirinha vinha sendo investida pela 30ª DP (Marechal Hermes) desde 2006. Várias pessoas foram ouvidas, mas o principal convocado, acusado de comandar o grupo, ainda não se apresentou à polícia. Trata-se do soldado Fabrício Mirra, que era lotado no 2º BPM (Maré) e foi remanejado ano passado para o Batalhão Ferroviário, em Guadalupe, perto da favela. Mirra está em vias de se transferir para o 2º BPM (Botafogo). A PM não apresentou o soldado.



GARÇOM É MORTO NO LUGAR DE PM



O casal encontrado morto dentro de um carro na Avenida Brasil, em Honório Gurgel, no domingo, foi identificado pela polícia como o garçom Marcelo Gregório Siqueira da Silva, 37 anos, e a amante dele, Josefa Helena do Nascimento, 27. Marcelo é irmão do soldado da PM Marcos Gregório Siqueira da Silva, preso sexta-feira sob acusação de integrar a milícia que vinha controlando a Favela Palmeirinha, em Guadalupe. As vítimas foram achadas carbonizadas no veículo após grupo formado por cerca de 30 traficantes invadir a Palmeirinha e seqüestrá-las.



Durante o enterro de Marcelo, ontem à tarde, no Cemitério de Irajá, o delegado Ricardo Dias Teixeira, titular da 40ª DP (Honório Gurgel), que investiga o crime, ouviu parentes da vítima, inclusive Marcos. Preso no Batalhão Especial Prisional (BEP), em Benfica, o policial foi escoltado ao velório e ao sepultamento — as cerimônias foram acompanhadas por patrulhas e agentes do Serviço Reservado do 9º BPM (Rocha Miranda). Segundo a polícia, o garçom — que era casado e morava no Morro do Jorge Turco, em Rocha Miranda — saiu de casa na noite de sábado para encontrar com a amante na Palmeirinha.



Quando ele estava na casa da jovem, na favela, os traficantes chegaram procurando por Marcos. “Eles queriam a mim e acabaram levando meu irmão”, disse o policial ao delegado. Marcos negou ser da milícia e disse que também namora uma jovem na Palmeirinha.



O Peugeot onde estavam os corpos havia sido roubado quinta-feira na esquina das ruas Alberto de Campos e Vinícius de Morais, em Ipanema. A motorista foi rendida por dois bandidos num sinal, onde teve o carro, bolsa, celular e outros pertences levados.



Bartolomeu Brito e Adriana Cruz.



Fonte: O Dia.

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