OPERAÇÃO SEGURANÇA PÚBLICA S/A


MPF aponta Garotinho como ‘chefe político’ e deputado como ‘gestor operacional’ de quadrilha.

Rio - Policiais federais desmontaram ontem o esquema que, para o Ministério Público Federal (MPF), consiste em uma organização criminosa chefiada pelo ex-governador Anthony Garotinho, do PMDB. Estruturada a partir da Secretaria de Segurança Pública do Estado, a quadrilha se aproveitou durante seis anos, segundo os procuradores, de um esquema de lavagem de dinheiro, loteamento de delegacias e contrabando de componentes eletrônicos para máquinas de caça-níqueis. Principal aliado do ex-governador na formação do grupo, o ex-chefe de Polícia Civil e deputado estadual Álvaro Lins, do PMDB, apontado como “gestor operacional” do bando, foi preso em flagrante, em seu apartamento de Copacabana, por lavagem de dinheiro.

Chamada de Segurança Pública S/A, a operação foi deflagrada às 6h. Segundo os investigadores, Lins era o principal gestor do grupo. Para fechar o cerco ao bando, o Tribunal Regional Federal (TRF) decretou a prisão de sete policiais, entre eles o ex-chefe de Polícia Ricardo Hallak, e expediu 16 mandados de busca e apreensão. Até o início da noite de ontem, um acusado continuava foragido.

De acordo com os procuradores Maurício da Rocha Ribeiro, Cristina Romanó e Paulo Fernando Corrêa, Garotinho atuava como “chefe político” da quadrilha. “Ele botava nos cargos-chaves quem a quadrilha queria. Só não há prova de que ele se beneficiava do ilícito. Não temos provas de que ele pedia dinheiro, como temos de que Lins e Hallak pediam”, afirmou Corrêa.

IMÓVEL DE R$ 1 MILHÃO

As investigações apontam que o objetivo da quadrilha era arrecadar dinheiro para garantir o financiamento de campanhas políticas. Com mandados de busca e apreensão, os agentes vasculharam as casas de Garotinho no Rio e em Campos. Em Copacabana, no apartamento em nome de Maria Bullos, avó da mulher de Lins, o deputado foi preso. O imóvel, avaliado em R$ 1 milhão e com condomínio de R$ 1.200, foi o ponto de partida para desbaratar o método de lavagem de dinheiro usado pelo deputado. Em 2006, na Operação Gladiador, a PF fez a primeira ligação de Lins com os caça-níqueis. O trabalho contou com informações repassadas por agentes da Polícia Civil indignados com o esquema de corrupção.

O MPF encaminhou à Justiça denuncia contra 16 acusados. Garotinho foi denunciado por formação de quadrilha armada. Lins e Hallak, que se entregou na sede da PF à noite, respondem por crimes relacionados a loteamento de delegacias — com exigência de pagamento de ‘caixinhas’ mensais de até R$ 25 mil por delegacia.

Para desbaratar o esquema, o MPF denunciou seis parentes de Lins, entre eles a mãe, Amélia Lins, a atual mulher, Sissy Bullos, e o sogro, Francis Bullos, vereador de Barra Mansa, também preso. Ao todo, nove dos denunciados estão presos, entre eles Mario Franklin, um dos quatro ‘inhos’, grupo de inspetores que agia com Lins.

Permissão para o esquema

De acordo com o procurador Paulo Fernando Corrêa, para permitir que o esquema funcionasse, Garotinho “sempre mantinha os integrantes da quadrilha em postos-chave na área de segurança pública, principalmente na Polícia Civil”. Nas unidades policiais, delegados eram submetidos até a chantagens para pagar as ‘caixinhas’. “Quem não aceitasse era transferido. Em várias delegacias, os denunciados faziam vista grossa a condutas ilegais em troca de altas quantias”, detalhou a procuradora Cristina Romanó. Entre as delegacias dominadas pela quadrilha, foi identificada a de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA).

“O Ministério Público Federal está convicto de que uma organização criminosa atuou durante mais de seis anos no governo do Estado do Rio”, afirmou Maurício da Rocha Ribeiro.

Segundo os procuradores, Garotinho está em liberdade porque ainda não há provas de que ele se beneficiava da arrecadação paralela. “Como sabia das irregularidades, entendemos que agia como integrante”, explicou Corrêa.

Os procuradores disseram que documentos e conversas telefônicas entre os integrantes da quadrilha e a deputada federal Marina Maggessi (PSB) foram enviados à Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Quanto à participação da ex-governadora Rosinha Garotinho e do ex-secretário de Segurança Pública e hoje deputado Marcelo Itagiba (PMDB), os procuradores afirmaram que não há indícios do envolvimento.

BUSCAS EM LARANJEIRAS

Às 11h30, agentes da PF chegaram à casa onde moram há dois meses os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, na Rua Engenheiro Modrach, em Laranjeiras. Antes, no início da manhã, a equipe esteve no apartamento em que Garotinho morou por oito meses, no sexto andar do Edifício Condessa Dias Garcia, na Praia do Flamengo. O imóvel de quatro quartos foi aberto com chave cedida pelo porteiro, mas estava vazio. Policiais tiveram que pedir nova autorização judicial de busca e apreensão para o endereço atual da família.

Em Laranjeiras, sete policias passaram quatro horas e 15 minutos na residência e saíram com bolsas e pastas com documentos. Garotinho estava em casa com a mulher e dois filhos. Durante a manhã, foi intenso o entra-e-sai de advogados. Irritada, Rosinha Garotinho chegou a ordenar que um segurança retirasse os repórteres da frente do imóvel. O funcionário argumentou: “Senhora, mas eles estão na rua”.

‘COVARDIA’

Em entrevista a uma rádio de Campos, Garotinho se disse surpreso com a operação e afirmou: “Quem não deve não teme”. Em seu blog, às 16h34, ele escreveu estar sendo vítima de uma “covardia”. “Não foi apreendido nenhum computador, nenhuma quantia em dinheiro, nenhuma arma, apenas uns poucos objetos de uso pessoal e da minha família. Levaram até a agenda do motorista e uma conta de gás. A covardia praticada contra minha família não ficará sem resposta. Não há nenhuma prova material de nenhum ilícito que tivesse sido praticado por mim. É política. Tudo política.”

Às 19h01, o ex-governador classificou de “absurda” a acusação de formação de quadrilha armada e disse que “a transferência ou substituição de policiais não pode servir para fundamentar uma acusação de crime”. Segundo ele, a troca de um policial da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente ocorreu por denúncia de extorsão contra uma empresa, relatada pelo presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouveia Vieira.

O vice-prefeito de Campos, Ricardo Henriques, e o deputado federal Geraldo Pudim visitaram o ex-governador. Ontem, o programa de rádio de Garotinho foi apresentado pela filha do casal Clarissa Matheus. Ela passou boa parte do programa falando sobre celebridades, como a atriz Luana Piovani, ignorando a ação da PF.

LIGAÇÕES: OS DENUNCIADOS

Anthony Garotinho: Foi denunciado por formação de quadrilha armada. Teve documentos apreendidos.



Álvaro Lins: Preso em flagrante por lavagem de dinheiro. Denunciado por formação de quadrilha armada, corrução passiva e contrabando.



Mário Franklin Leite Mustrange de Carvalho, o Marinho: Inspetor de polícia, denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.



Fábio Menezes de Leão (Fabinho), Jorge Luiz Fernandes (Jorginho) — os dois já presos — e Hélio Machado da Conceição, o Helinho, foragido: Foram denunciados por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.

Ricardo Hallak e Luiz Carlos dos Santos: Delegados, estão denunciados por formação de quadrilha armada. Hallak se entregou.



Alcides Campos Sodré Ferreira (Alcides Cabeção): Inspetor de polícia, foi denunciado por formação de quadrilha armada.



Luciana Gouveia dos Santos e Francis Bullos: Ex-mulher e atual sogro de Álvaro Lins, foram presos e denunciados por lavagem de dinheiro. Bullos é vereador em Barra Mansa. Ela foi liberada à noite.



Daniel Goulart (inspetor de polícia): Denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Não foi preso.



Vanda de Oliveira Bullos (sogra de Lins), Sissy Toledo de Macedo Bullos Lins (atual mulher), Maria Bullos (avó de Sissy) e Amélia Lins (mãe de Lins): Todas foram denunciadas por lavagem de dinheiro, ligadas a Álvaro Lins. Não estão presas.




Fonte O DIA

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