sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

NÃO QUERO ESSE AMANHÃ!

Segunda-feira, Novembro 14, 2005


NÃO QUERO ESSE AMANHÃ!



por Paulo David.


Todos querem o amanhã, almejam o amanhã, sonham com o amanhã.

Na verdade, a maioria o anseia mais por temor à morte que por qualquer coisa razoavelmente aceitável ou tateável, nessa querência que beira a insanidade, que se debruça na insensatez ou no delírio dos alienados.

Acumulam dinheiro, compram terras e casa, mais terras e casas que poderão ter como chão onde poderão caminhar ou tetos onde se abrigarão. Mas compram assim mesmo em nome da segurança, do amanhã.

Fazem seguros vultuosos, adquirem planos para turbinar a bufunfa que embolsarão quando velhos, aplicam na bolsa, na poupança, do diabo a quatro, todos pensando no amanhã. Todos que podem, claro.

Enquanto isso...

No jornal de hoje vemos a europa em pé de guerra; os Estados Unidos, o oriente médio, a ásia e parte da áfrica, com os pés na guerra.

No mundo, hoje, temos quase uma centena e meia de guerras declaradas.

Paris, de cidade luz, tornou-se, de um momento para o outro: a cidade chamas. A Bélgica, a Holanda (e em breve a Alemanha), seguem o mesmo caminho. Não demora a europa inteira viverá esse mesmo estertor da paz.

A Comunidade européia mandou dinheiro para Paris. Não para minimizar o impacto das diferenças sócias e culturais. Mas para o enfrentamento.

O povo estadudinense em breve terá sua europa. Katrina não plantou a semente, não o culpem. Apenas colocou a chaga exposta ao céu. Breve a semente que agora pegou sol: vai germinar...

O mundo caminha para isso, inapelavelmente. Não é um exercício de futurologia. Não tenho queda para profeta. Apenas tenho olhos de ver.

Convulsões civis, por conta da rota de colisão entre os excluídos e os donos das riquezas (ou aquilo que os representa), fazem o mundo estremecer de ódio e chamas.

São milhões de famintos, de miseráveis, de excluídos, ainda desunidos. Como sabemos, a união faz a força.

No Brasil, temos os nossos. As nossas mazelas. O nosso cinismo social.

Quando as gangues saíram às ruas e tomaram Paris e o interior da França incendiando tudo, destruindo, numa insurreição que o governo francês rotulou como “atos de banditismo”, não pensaram no que não fizeram historicamente por seus miseráveis.

Tal qual os Estados Unidos e o Brasil...

As gangues americanas têm armas, muitas, não são como as européias.

No Brasil, idem. Em praticamente todas as grandes capitais, principalmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.

O Rio de Janeiro ainda tem um agravante: as gangues estão bem no coração da cidade maravilhosa, em nossos guetos, em nossas favelas, onde já dominam tudo e todos que lá residem: graças a ausência do Estado e a nossa conivente e cruel omissão.

Aplaudimos cinicamente quando forças de segurança invadem essas favelas e montam uma cena cinematográfica para assassinar um mero traficante, como foi o caso do Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, que morreu na madrugada de um sábado, em 29 de outubro de 2005, numa troca de tiros com policiais que participavam da Operação Tróia, próximo ao valão do Largo do Boiadeiro, na Rocinha. O bandido tinha assumido o controle do tráfico da favela desde a morte do traficante Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, em abril de 2004, também em confronto com a polícia.

Os policiais vigiaram de perto o bandido. Chegaram a alugar um apartamento no morro. Finalmente conseguiram cercá-lo na parte baixa da Rocinha. Houve confronto e Bem-Te-Vi foi atingido na cabeça e no tórax. O traficante já chegou morto ao Hospital Souza Aguiar.

Fizeram grandes coisa? Não! Não fizeram nada! Apenas gastaram mais dinheiro para matar mais um dos muitos bem-te-vis que temos por aqui... Antes dele muitos houveram; muitos haverão depois. Desde a morte de “Zé do Queijo” por “Denis da Rocinha”, mais de vinte “donos” já passaram pelo posto. Agora mesmo já tem novo “dono” a Rocinha.

O que me intriga é: porquê foram lá para matar, chegando a alugar um apartamento para tal? Vai que vire moda. Temos centenas de favelas, centenas de “donos” de favelas, e milhares de substitutos. Resumo da ópera: nada do que fizeram é novidade. Mataram mais um. Novidade, apenas o método... Se forem usar com todos, teremos que pedir um empréstimo ao FMI, a fundo perdido (coisa que já deveriam ter feito para consertar os helicópteros da polícia civil e militar danificados pela munição do tráfico de entorpecentes).

Não fizeram nada!

O tráfico na Rocinha, continua: livre, leve e solto. Assim como nossa insegurança, a ausência do Estado nesses guetos e o cinismo social.

A polícia fingiu que fez algo extraordinário... e nós fingimos que acreditamos.

Por enquanto o estado está subindo para matar, não para acabar com as gangues que lá existem. Se crianças morrem nessas investidas, a policia diz que foi pela munição do bandido e o bandido diz que bandido é o policial que atirou na criança. Por cegueira ou imbecilidade crônica, nós nos omitimos!

“-Ora, não está acontecendo na zona sul!”

Ainda não, senhores. Ainda não...

Ainda não copiamos Paris!

Amanhã quando nossas gangues descerem, então cobraremos urgência. Mas, creiam: será tarde demais!

Cinicamente todos sabemos que é esse o amanhã que nos espera na esquina do tempo! Nada cobramos hoje, imediatamente! Não falo de mais tiros, de mais balas perdidas, de mais cadáveres!

Falo de Justiça Social!

Não, senhores: não almejo esse amanhã que estão construindo.

Não quero esse amanhã para mim!

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